sexta-feira, 10 de setembro de 2010

KARLA HOLMES E O MISTÉRIO DA POMBINHA BRANCA

11/09/2010

16:51

Uma grande tempestade inundou a minha cidade, levando meias de varais, pessoas muito magras e também a minha eletricidade.

Que maravilha.

Não, isso não foi irônico. Eu adoro chuva.

Mas não quando ela acaba com as minhas atividades de lazer e com qualquer comunicação com a minha nave-mãe: o tópico de A Infiltrada.

Ok, agora eu sei que foi irônico.

Ou não, né? Eu não falei isso, eu escrevi isso.

De qualquer forma, resumindo, basicamente... Bom, eu estou entediada.

Minha última missão, embora muito bem intencionada, não deu muito certo.

Mas...

Me deu alguns créditos. Importância. Respeito profundo. Falta pouco pra eu virar real merecedora do termo “filha de um pai”.

Ok, nada disso.

As pessoas ainda me ignoram na rua, e riem quando eu falo que gosto de manteiga de amendoim com geléia, principalmente porque eu não gosto de manteiga de amendoim, muito menos com
geléia.

Minha vidinha medíocre continua a mesma.

Onde está a aventura? Os dragões, as princesas indefesas? Onde está a EMOÇÃO? Onde estão meus fãs?

Afinal, tive um grande papel na busca da alegria geral da nação.

Pensei que as pessoas viriam em milhares para a porta da minha humilde casinha clamando por ajuda. Desde ir catar bichanos de cima de árvores até proteger o presidente da Ucrânia em uma missão homicida. Tô aceitando qualquer coisa.

Por que ninguém vem?

Por que ninguém mais liga para lições de moral, pães super gatos e finais felizes?

Eu não entendo.

Além do mais, sinto muita falta do meu elementar amigo Watson, que nunca, NUNCA, será somente um pedaço de pão para mim. Mas com certeza ele está sendo muito bem cuidado pelo mendigo-velhinho-gente-boa que eu achei na rua.

E, pra completar tudo isso, hoje é dia 11 de Setembro, e eu sempre choro no 11 de Setembro. Não importa se já é cedo ou tarde. Uma hora eu sempre acabo chorando. Precisa comentar mais algo?

Cara, como eu queria ser alguém.

Aí vem você e diz: Mas você já é alguém.

Só que eu quero ser alguém, e não alguém, sacas?

E você: Não.

Então, eu dou um tapa na sua cara e vou embor...

...

...

...

...

...

...

...

Desculpe. Este papo estava tão entediante que eu cochilei um pouco.

E foi a coisa mais útil que eu fiz nessa semana.

Ah, falando em coisas, a tia da irmã da sobrinha da prima da cozinheira da casa da minha dentista comprou um...

TOC TOC


O que foi isso?

TOC TOC


Ah, a porta.

...

TOC TOC


Droga, esqueci de ir atender.

Espero que não sejam aquelas escoteiras chatas de novo com aquele biscoito engasga-gato de novo. Isso mesmo, vaga-lumes, estou falando de vocês.

Abri a porta despreocupadamente, quando um ser invade a minha casa, completamente
desesperado.

- Você é Karla Holmes? – ele perguntou, ofegante.

-Depende. Você é cobrador?

-Não.

-Então, sou Karla Holmes, a sua disposição.

-Ouvi falar do trabalho, foi-me muito bem indicada. Enfim, preciso da sua ajuda. Vidas
dependem disso.

Opa. Gostei disso.

-O que é, senhor? É questão de vida ou morte? O presidente está envolvido?

-Sim, é questão de vida ou morte. E não, o presidente não está envolvido. O caso é que, minha pombinha, tão saudável, tão magnífica, parece estar muito chateada com algo. Já tentei de tudo, mas ela não melhora. Penso que talvez ela esteja doente. E isso deixa meu coração tão triste...

Arregalei os olhos. ESSA ERA A QUESTÃO DE VIDA OU MORTE? UMA POMBA FRESCA? Eu estou sendo muito subestimada. Onde já se viu...

-Por que o senhor não procurou um veterinário? Sabe, veterinários cuidam de animais como a
sua pombinha, não sei se o senhor sabe...

-NUNCA!

Estremeci com o grito dele. Tá, tudo bem, se é pra cuidar da pombinha, eu cuido.

-Ok. Aceito sua proposta. Mas, o que eu tenho que fazer, exatamente?

-Acompanhe-me.

Táááá, se vamos ser misteriosos, tudo bem. Eu NÃO me importo, viu?

Agora, como eu vou fazer pra ajudar o maluco de pedra e a sua pomba, eu não sei, mas...

-WOW!

Deixei um grito de surpresa escapar.

O cara podia ser um maluco, mas esse maluco tinha uma FERRARI!

Mas como que chegamos aqui tão rápido?

Noffa, eu preciso controlar meus pensamentos. Eles me deixam completamente avoada. Nem vi que já tínhamos chegado na rua. Vai que um dia minha casinha tá pegando fogo e eu nem
percebo...

-Vamos?

Pensei um pouco. Um cara maluco e desconhecido, que chega na minha casa do nada, e que tem
uma pomba que precisa da minha atenção, está me convidando para entrar na sua Ferrari. Nada estranho.

Mas, ainda sim, faltava algo. Sentia isso.

Olhei para a padaria que ficava estrategicamente localizada do lado oposto da rua.

AHÁ! JÁ SEI!

- Claro – respondi – Mas preciso fazer uma coisa antes. É rápido, não se preocupe.


***


Voltei da padaria com um Croissant. E não, não iria comê-lo.

E isso mesmo, você adivinhou. É o Watson.

Como o último Watson foi uma Baguete, resolvi não ficar repetindo as coisas.

Meu elementar e necessário amigo Watson, dessa vez, é um Croissant.

Guardei-o na bolsa pra dar sorte.

-Agoooora, podemos ir.

Subimos na Ferrari sentia o vento bater nos meus cabelos enquanto ele acelerava até os 180
km/h.

Mentira.

Ele estava dirigindo mais devagar que uma lesma. Olhei no velocímetro: 10 km/h.

Até as tartarugas que passavam pela rua pareciam zombar da gente.

Espera, tartarugas na rua?

Perdi a linha do raciocínio quando ele me interrompeu:

-Chegamos.

Como assim, “Chegamos”?

Entramos no carro faz menos de um minuto.

Foi aí que eu percebi que estávamos em um lugar completamente diferente.

Por “completamente diferente”, entenda: na frente de uma mansão gigantesca e imponente, debaixo de outra tempestade vinda de não sei onde.

ÓTIMO. Minhas meias novas estão molhadas.

Ele saiu do carro apressadamente em direção a mansão.

Incrivelmente, ele conseguia ser um homem super sensível enquanto falava de sua pombinha, e
depois rude como um humano primitivo.

Nem abriu a porta pra mim...

Como não tive escolha, saí correndo em direção a mansão também. Eu que não ia ficar que nem um dois de paus parada nessa chuva com cara de tacho.

Conforme adentrávamos a sala principal, pude perceber a excêntrica decoração. Móveis antigos, empoeirados e quadros. Muitos quadros. Todos pareciam nos seguir com olhar. Assustador.

Em um canto da sala, estava uma gaiola dourada, e dentro dela, havia uma linda pomba branca, apoiada em um pequeno suporte. Ela realmente parecia muito abatida.

-Eu não sei mais o que fazer – ele choramingou, desviando minha atenção da pomba – Ela não quer mais comer, não quer mais se mexer, não quer mais fazer nada! E é tão pequena...
Praticamente recém-saída do ovo...

-Senhor – eu demorei um pouco para continuar – Eu realmente não entendo nada de animais. Mas prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para que a sua pombinha...

-Lizzie – ele me interrompeu.

-Certo. Para que Lizzie fique boa novamente.

-Muito obrigado.

Analisei mais uma vez a... Lizzie. Parecia que ela tinha tudo lá, comida, água, brinquedo para aves e... um cata-vento. Suas penas estavam perfeitamente brancas e macias, ou seja, fortes e saudáveis. Por que, Lizzie? Por que você está assim?

-Ela ainda consegue voar?

-Como assim? – ele perguntou, confuso.

- Voar, você sabe. Bater as asinhas e sair do chão – imitei um passarinho voando.

-Minha Lizzie não voa.

-Como assim? – agora fui eu que perguntei.

-O mundo é perigoso demais. Ela pode se machucar. É muito melhor que ela fique exatamente onde está, para evitar problemas.

-Mas ela é um pássaro! Pássaros precisam voar! É da natureza deles! Pra quê privá-los da coisa que mais lhe dão satisfação? Da coisa que define o que eles são? Dê-me ao menos um argumento convincente, e eu me calarei.

Ele encarava o chão inexpressivamente. Estaria assim por dentro, também?

Por que tanta falta de emoção? Afinal, ele tinha tudo que um homem pode desejar. Pra quê tanta amargura? Tanta indiferença? Tanta proteção?

Continuei esperando e não movi meu olhar. O senhor na minha frente também não. Vendo que
não iria ceder, continuei:

-O que o senhor faria se lhe colocassem em uma caixa, para que nunca mais pudesse andar?

Como se sentiria? Como se sentiria sabendo que nunca sentiria a grama sob seus pés, a textura do asfalto, a água do oceano? Diga-me. Ou melhor, pergunte à Lizzie. Ela sabe muito bem como é.

-Você não entende nada – ele finalmente falou – É jovem demais. Não viveu o bastante, não conhece o mundo, não sabe nada sobre as dores da vida. Portanto, não ouse me julgar.

-E o que o senhor sabe tanto que eu não sei? Porque acredito que, jovem ou não, uma pessoa tem noções do certo e do errado, do que é bom e do que é ruim. Isso é ruim.

-Isso o quê?

-Tudo. Suas atitudes, seu jeito, suas ações. Está fazendo mal a si mesmo e também a um pobre ser vivo, que nada tem a ver com seus complicadíssimos problemas. Até imagino: “Oh, o meu iate afundou no Oceano Pacífico, terei que comprar outro para repor”.

-Você não sabe nada sobre mim, garota – ele rosnou – E respeito com os mais velhos.

Rolei os olhos.

-E o que eu preciso saber, então, para compreender o senhor?

Ele parou por um momento. Como se lembrasse de algo. Enfim, ele iria ceder. Voltou seus olhos azuis e cansados na minha direção.

-Você pensa que eu tenho tudo. Na verdade, eu não tenho nada. Perdi tudo que um dia já foi valioso para mim. Dinheiro, mansões, iates, tudo isso não compra o que eu mais almejo.

-E o que é? – perguntei, curiosa.

-Minha família de volta- houve uma pausa – Fui um crápula com todos que desejavam o meu
bem, e passei por cima de quem estivesse no meu caminho. Ganhei milhões, mas perdi minha esposa. E meus filhos. Agora é tarde demais.

-Nunca é tão tarde demais.

-É sim. Além do mais, eles não devem me querer de volta.

Fiquei muda.

Pela primeira vez durante todo o nosso encontro, ele sorriu. Um sorriso tímido, mais uma puxada do lábio superior direito, mas ainda assim, um sorriso.

-Eu tenho dois filhos. Já são adultos, agora. O mais velho tem uma menina da sua idade, pelo que ouvi falar. Minha esposa... Ela faleceu faz alguns anos. Não tive a oportunidade de me despedir... Ainda os amo muito. Sempre amei. Mas minha hora já passou. Eu tenho agora somente Lizzie para me fazer companhia.

-O senhor ama a Lizzie? Ama mesmo?

-É claro que sim.

-Então a deixe ir. Deixe-a viver. Acredito que o senhor não queira mais um como você, preso como você e, especialmente, por sua culpa – queria rir com a ironia da situação. Mas não o fiz.
Aquilo tudo era muito sério.

Ele considerou por um momento. Olhava de Lizzie para a janela, da janela para Lizzie, de mim
para o carpete. Durou uma eternidade.

-Lizzie – ele disse carinhosamente, tocando a sua pequena cabeça com a ponta dos dedos – É isso mesmo que você quer?

Eu podia jurar ter visto o pássaro acenar com a cabeça. Eu realmente estou enlouquecendo.

Então, ele abriu a gaiola.

Talvez não só a gaiola material, aquela dourada que estávamos vendo, mas talvez também a sua gaiola. A qual ele esteve preso por não sei quantos anos. E que iria libertar ambos.

Lizzie sacudiu todo o seu corpinho enquanto se encaminhava para a saída, ainda um pouco desconfiada. E então, parou.

-Vamos, Lizzie – encorajei-a – Se eu pudesse escolher um dia para voar, seria hoje. Veja o lindo céu...

Espera. Lindo céu? Mas não estava chovendo TORRENCIALMENTE há alguns minutos? E agora vem um lindo pôr-do-sol e um... arco-íris? Que tempo maluco...

Ela abriu as asas, talvez pela primeira vez em toda a sua breve vida, e começou a chacoalhá-las para cima e para baixo.

Logicamente, eu estava acompanhando TODOS os movimentos com meus braços. Se era pra fazer, que fosse bem feito.

Lizzie pegou impulso e...

Voou.


Com suas asas brancas, deu voltas por toda a sala, me deixando boquiaberta.

Não porque ela estava dando voltas pela sala, mas porque estava, literalmente, iluminando todo o lugar que passava.

Antes de dirigir-se a janela, deu um olhar significativo para o senhor ao meu lado, que sorria feito bobo. Se eu não conhecesse bem as aves, diria que ela estava agradecendo.

Mas animais não agradecem com o olhar. E não falam, que isso fique bem claro.

E então, ela partiu.

Voou para fora da sua grande prisão.

E eu senti algo.

Paz.


Não havia uma grande piada ou uma grande aventura.

Havia apenas duas grandes ironias: “a pombinha branca da paz” e “Droga, eu chorei no 11 de Setembro. De novo.

Mas havia também algo melhor.

Liberdade.


E é isso que me faz ter esperança.

E enquanto houver pessoas nesse mundo que puderem parar para apreciar um momento como este, sei que ela nunca irá desaparecer.

Silenciosamente, eu acompanhei o voo tranquilo da pequena pomba, sereno como um rio, até ela se confundir com o horizonte infinito. E além.



FIM – Ou será que não?




***


Acordo atordoada, gritando “VOE PARA A LUZ! A LUZ”.

AH, NÃO!

Sonho? De NOVO?

Sinceramente, isso já está ficando muito clichê.

Sério que não podia acabar a história assim? Final bonitinho, lição de moral, paisagem de filme e tal?

Se bem que eu realmente estava notando algumas coisas estranhas, e...

AH, NÃO! ESTOU SEM MEU AMIGO WATSON DE NOVO!

Mundo crueeeeel.

Por que eu NUNCA consigo ficar junto do meu amigo? Sempre tiram ele de mim...

Tenho trauma de comer pão, agora.

ÓTIMO.

Virei para o lado e voltei a dormir.



AGORA SIM


FIM

2 comentários:

GABRIELE disse...

Nossa... Vc é bem malukinha com a sua história... Eu Gosto!
Muito fofinha.... E eu também estou em abstinência de AI...
Poxa, tá demorando tannnto... será q a Nath vai desistir? *cruzando os dedos que não*
Vlw, e nos *falamos*? no próximo post...
Não sei pq, mas me sinto tão rídicula comentando, ninguém nunca olha *-*
Xau

Anônimo disse...

Oi gente!simpatizei intensamente o vosso blogue!
Deem uma olhada tambemno meu trabalho em http://www.regraspoker.pokersemdeposito.com/ , sobre regras de poker em portugues!
Ate a vista