sábado, 31 de outubro de 2015

Como trabalhar na Disney


Com duas semanas para o meu embarque e visto oficialmente autorizado, sinto que nada, nem um pé quebrado, nem o fim do mundo, nem o vírus da dengue, NADA mais ficará no caminho entre a minha mala e aquele avião.

Dito isso, agora bato na madeira, porque seria horrível ir pra Disney de pé engessado, tomando remédio, no meio do apocalipse zumbi. Pelo menos, se isso acontecer, eu tenho certeza que o meu seguro cobre (mais sobre isso depois).

Trabalhar na Disney é fácil? Vamos começar dizendo que, sim, é possível. É importante essa escolha de palavras, porque "fácil" mesmo é um modo ao qual esse jogo em particular não está habilitado. Aqui nessa realidade é só de level hard pra cima, sendo por vezes uma história indistinguível de Jogos Vorazes, Game of Thrones e Big Brother, só disfarçados de magia e pó mágico.

E, hey, isso é uma coisa boa.

Na verdade, essa é a diferença fundamental entre a experiência de ir à Disney a passeio e a trabalho. A passeio, você senta, relaxa e aproveita, porque sabe que o show foi feito exclusivamente para você. A trabalho, você é a pessoa fazendo o show acontecer. Puxando as cordinhas. Ajudando o Donald a se preparar pra parada das 3 da tarde ("que horas começa a parada das 3?"). Dando o "ok" para o barquinho começar a jornada pela selva animatrônica. Não há espaço para erros quando você é membro do elenco (cast member) da maior empresa de entretenimento do mundo.

E por que alguém escolheria o modo hard em vez do modo easy, especialmente quando o modo easy parece tão mais mágico e perfeito? Afinal, ninguém quer ver a Cinderella comendo um sanduíche de bacon enquanto alguém conserta as luzes problemáticas do Fantasmic.

Bom, assim como qualquer videogame, o modo hard, quando batido, sempre é também o mais gratificante: eu consegui, fiz isso sozinho, sou o campeão, pode soltar o Queen bem alto agora.

Mas todo mundo sabe que a Disney não é como um videogame, não tem nada a ver, é só a metáfora mesmo. A Disney é um sonho. E nenhum sonho se realiza sem um esforço muito grande, um estresse que te consome e muitas noites mal dormidas. Porque, no final, o sonho sempre vai valer a pena.

A Disney é o meu sonho. E agora, pode-se dizer que estou pronta para vivê-lo, uma vez que a parte burocrática está toda completa.

Qual é o seu sonho? Se houver alguma chance que seja parecido com o meu, continue por aqui que vamos desvendá-lo para você.


Quem é que faz o programa?
O ICP (International College Program) ou CEP (Cultural Exchange Program), no Brasil, é mediado pela STB (Student Travel Bureal), uma agência de intercâmbio que sedia a primeira fase da seleção e facilita o processo para o aplicante. Acessem o link para maiores informações sobre o ICP.

O que eu preciso fazer para ser elegível para o programa?
- Ter no mínimo 18 anos de idade até a data de início do processo seletivo.
- Ter inglês fluente.
- Ser estudante universitário regularmente matriculado em curso presencial reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), com duração mínima de quatro anos e calendário acadêmico regular.
- Estar cursando entre o segundo e o último período acadêmico.
- Ter disponibilidade para iniciar e completar o programa a partir de meados de novembro até o começo de março do ano seguinte.
- Possuir condições financeiras para custear bilhete aéreo de ida e volta, seguro médico internacional, as primeiras duas semanas de acomodação e despesas de visto.
- Estar apto a morar com participantes de diferentes países e culturas.
- Ser extrovertido, alegre e flexível.

No que consiste o processo seletivo?
O processo mesmo leva uns seis meses, o que é uma maravilha para pessoas ansiosas como eu, mas basicamente ele consiste em duas palestras e duas entrevistas que você precisa passar. A primeira fase acontece em algumas cidades do país, como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte, e é feita por representantes da STB, toda em inglês.

Depois da primeira fase, se seu resultado for positivo, você passa para a segunda fase em São Paulo, em que a entrevista é feita pelo povo americano da Disney, e esse ano, pela primeira vez, foi realizada no próprio escritório da Disney, o que é um pouco bastante tenso, mas divertido.

Além disso, eles avaliam seu currículo (não é necessária experiência anterior de trabalho) e sua Letter of Intent, carta em que você explicita os motivos por quais você quer muito isso pra sua vida (sem muito melodrama, por favor, mas sem deixar de ser fofo, afinal não é pra esquecer que é um intercâmbio de trabalho, mas também é a Disney). Para saber mais sobre essa parte, acesse esse blog que me ajudou muito durante o processo.

O que posso fazer na Disney?
As "roles" (funções) são:

- Attractions/Operations (trabalha em brinquedos, shows e paradas);

- Bell Services (posição em hotéis, parecido com mensageiro); 

- Character Attendant (acompanhante dos personagens); 

- Character Performer (o próprio personagem, mas para o ICP só é possível ser um personagem de "pelo", então, não, meninas, não pode ser princesa); 

- Merchandise (trabalho em lojas de parques, hotéis e Disney Springs); 

- Quick Service (trabalho em restaurantes fast-food em parques e hotéis);

- Costuming (trabalho de bastidores, nos locais onde os cast members retiram e devolvem suas roupas); 

- Custodial (manutenção e limpeza de parques e hotéis durante o horário de funcionamento para o público); 

- Full Service (função exercida em restaurantes com serviço de garçom); 

- Housekeeping (camareiro nos hotéis); 

- Lifeguard (salva-vidas); 

- Recreation (aluguel de equipamentos de lazer em hotéis, entre outros). 

É importante ressaltar que enquanto você pode determinar as suas preferências, a escolha final sempre é da Disney e não pode ser alterada, exceto em raríssimos casos. Minha dica: só vai. No ICP, a gente diz: "the role never bothered me anyway". A oportunidade e a experiência como um todo são muito maiores que a sua posição no show. Na Disney, todo mundo é importante.

Clique aqui para maiores informações sobre as roles.

E se você quiser ser expert no programa e saber de tudo na hora que acontece,
Entre no grupo fechado do facebook dos Futuros Cast Members, em que todo mundo se ajuda e você vive o programa várias vezes antes mesmo de participar. É sério. Entrem no grupo. Salva a sua vida várias vezes quando tem informação nova nos sites ou prazos urgentes pra cumprir.

Agora, a minha experiência.

Se você mora em Manaus e tem um sonho, espero que você seja uma pessoa muito valente. Eu não sou, mas estou aprendendo a ser. Além do custo normal do programa (que é mais barato que um intercâmbio normal, além do fato de você ganhar boa parte de volta com o seu salário), eu tive que viajar duas vezes com a minha amiga Victoria só para fazer parte do processo seletivo. 

Após trancos e barrancos, uma carta escrita às pressas, a Victoria ter ficado de stand-by na primeira fase, uma segunda entrevista tão nervosa que tenho espasmos só de lembrar, a novela do seguro de saúde e um drama gigantesco nas faculdades públicas desse país, passamos. Vamos. 

Eu passei para Merchandise, a Victoria para Quick Service, e vamos no dia 16 e 30 de novembro, respectivamente, voltando em 11 de fevereiro, após uma viagem de 5 dias para Nova York no final do programa.

Rimos, choramos, batemos a cabeça na parede, cantamos High School Musical na fria sala de espera da entrevista com vários desconhecidos, conhecemos a Rádio Disney, sofremos com a Internet caindo bem na hora das missões impossíveis que precisavam ser cumpridas em segundos, choramos mais um pouco, gargalhamos, fizemos amigos do Brasil todo e muito brevemente do mundo todo, vimos várias pessoas ficarem pelo caminho, aprendemos a apontar com dois dedos... e assim é o ICP.

E, acredite ou não, ele só está começando.

Tenho tanta coisa ainda pra falar que meus dedos estão engasgados, por isso hoje vou parar por aqui. Qualquer pergunta, qualquer sugestão de tópico sobre o programa, não hesite em perguntar, que eu estarei prontíssima para responder, funcionária digna de Walt Disney que sou.

Caramba.

Que sonho. 


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

P.S.: Funcionária do Mickey


Com as mãos trêmulas e o cabelo molhado, escrevo estas palavras que convêm uma alegria muito sofrida e suada: após meses de incessantes testes e preocupações, sou oficialmente uma cast member contratada pela Walt Disney World na Flórida. Resumindo, eu vou trabalhar na DISNEY. Sabe a Disney? Aquela Disney? Pois é, essa Disney. Eu tô indo trabalhar lá. Eu, eu mesma. Na Disney.

As mãos trêmulas não são tão difíceis de deduzir o motivo, eu acabei de voltar do consulado americano e eles estavam anunciando que iriam começar "um treinamento de destruição em massa com armas pesadas", e que "não era necessário se alarmar". O cabelo molhado é porque eu saí correndo na chuva sem olhar pra trás, pernas pra que te quero, com bombas explodindo em algum lugar da propriedade, sorrindo feito uma pessoa que aparentemente ainda não entendeu a estranheza da situação.

Quem liga para bombas, que se explodam, porque eu acabei de passar com louvor pelo Chefão Final da última fase do Cultural Exchange Program (CEP, falecido, porém eterno ICP), a temida e impiedosa Embaixada dos Estados Unidos.

Este post é somente uma nota para expressar a minha mais que absoluta felicidade e êxtase com a notícia, e anunciar a nova série do blog, que vai ser sobre um assunto que eu acho que vocês podem adivinhar.

Respondendo logo algumas perguntas que serão elaboradas futuramente, junto de maiores explicações, eu adianto que será um estágio de novembro a fevereiro em Orlando, e que não, eu não vou ser a Minnie, nem o Pateta (acho importante declarar, haha). Passei para o cargo de Merchandise, ou seja, vou trabalhar nas lojas do complexo.

Já que a minha mão parou de tremer, agora é hora de comemorar (tomando água, porque a garganta tá seca, seca).

Se você estiver visitando a Disney nesse final de ano, não esquece de dar um oi.

Enquanto isso, vou ficar aqui praticando a chamar um certo camundongo de chefinho.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Contraindicado em casos de suspeita de Bratislava


Nosso querido e saudoso escritor Douglas Adams já dizia: “Na vida, há várias centenas de experiências, sentimentos e situações que todos conhecemos e reconhecemos, mas para os quais não existe uma palavra. Por outro lado, o mundo está infestado com milhares de palavras sobressalentes que passam o tempo todo sem fazer nada além de vadiarem por aí em postes de sinalização apontando para lugares."

Sabe o ligeiro desconforto que você sente ao se sentar em um assento que ainda está quente da bunda de outra pessoa? Ou quando você se encontra parado na cozinha sem saber exatamente o que foi fazer lá? Todo mundo conhece essas sensações, porém somos ingênuos o suficiente para acreditar que somos únicos nas nossas esquisitices, talvez pelo simples fato de que ninguém nunca tenha parado para nomear esses momentos fugazes, que passam despercebidos pela memória.

Aliás, "Woking". É por esse motivo que você abriu a geladeira de madrugada mesmo sabendo que só tinha queijo vencido dentro. E já que estamos desvendando os mistérios da experiência humana, conheçam "Abilene": é esse o descritivo do frescor agradável do lado inverso do travesseiro.

O que essas palavras têm em comum? São todas nomes de cidades do interior do interior da Inglaterra, que previamente não denotavam significado maior além de "pois é, nasci lá". Para Douglas Adams, no entretanto, essas foram palavras oportunas e divertidas que o ajudaram a traduzir o inexplicável, cujos verbetes ele reuniu em seu livro "The Meaning of Liff".

Como toda boa ideia, essa surgiu em uma viagem do autor, dessa vez à Grécia, ou seja, em um momento maravilhoso em que estamos relaxados, atentos e propícios a acreditar em mais do que seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

Então foi assim, relaxada, atenta e propícia a aceitar situações impossíveis, que eu embarquei na maior inocência em um trem para a pacata capital da Eslováquia, Bratislava.

Eis o que se seguiu.


A ideia era tão boa como qualquer outra. Mais um dia na cinzenta e austríaca Viena e começaríamos a falar espontaneamente em alemão, frustrados, soltando grunhidos pelos ares. A Polônia era muito longe e voltar para a Hungria não era uma opção. Por que não, então, dar uma chance para a outra capital europeia localizada a meia hora de distância, que nas fotos parece tão pitoresca e agradável?

Não, vamos sim. Parece divertido, Carlinhos. A previsão do tempo disse que iria ficar muito frio e chover, mas talvez a área só cobrisse a Áustria, e não a Eslováquia. Imagina só uma chuva tão potente que fosse cobrir dois países, não, é um absurdo. Vamos sim.

Fomos. No trem, eu cedi à tentação recorrente de apoiar a cabeça no vidro gelado e pulsante da janela, só porque eu podia e achava legal e fresquinho. Não sei se existe uma palavra para isso, eu já procurei, mas sei que muita gente faz isso no avião. Deve ser terapêutico. O que eu percebi, no entanto, ao fazer isso, na época ainda não entendia o significado, mas hoje eu sei que se refere ao occhiolismo, uma palavra obscura criada pelo americano John Koenig. A consciência da pequenez da sua perspectiva.

É óbvio que iria chover forte em qualquer lugar a 30 minutos de Viena também, não importa se isso atravessa uma fronteira imposta por convenções políticas, ou o quão positivo seu pensamento seja. Mas não foi por isso que cheguei a essa conclusão. O que eu estava pensando mesmo não tinha nada a ver com o tempo; estava maravilhada com a prova física de que mesmo com poucos quilômetros de distância, dois lugares poderiam ter histórias, paisagens, línguas e costumes completamente diferentes um do outro, mesmo que separados apenas por uma linha imaginária fortalecida pelo tempo.

Aqui no Brasil dificilmente nos deparamos com essa perspectiva, visto que vivemos em um país de proporções continentais e um mero adolescente com seus 515 anos de história "oficial". Na Europa, é tudo tão pertinho, tão pequenininho, que você fica até impressionado com as mudanças bruscas de cenário. Isso me faz imaginar as pessoas na era medieval brigando pelo seu pedacinho de terra, que claramente era muito melhor e infinitamente superior ao outro pedacinho de terra do vizinho, por isso eles precisavam morrer.

Se ao menos aquele trem fosse uma máquina do tempo me transportando diretamente para o passado, para que eu pudesse presenciar ao menos por um dia os grandes reis da Hungria sendo coroados no Castelo de Bratislava, ou pudesse bater um papo com a Sissi e colocar um pouco de juízo na cabeça dela, afinal, tudo isso aconteceu tão pertinho, aqui, exatamente aqui neste lugar... centenas de anos atrás. É onismo, sabia? A frustração de ficar preso em apenas um corpo, que habita somente um lugar de cada vez.

De qualquer forma, chegamos. Nossos únicos corpos orgânicos nesta dimensão do espaço-temporal desembarcaram na ferroviária eslovaca, consideravelmente confusos e amedrontados. Era a Eslováquia ou era a Turquia? Porque parecia que havíamos aterrissado de paraquedas no meio de Istambul, tamanha era a desorganização e desleixo da estação, com cara de poucos amigos e ande rápido.


"Acho que precisamos de um mapa", sugeriu brilhantemente meu irmão. "Podemos ir andando até o centro histórico."

Mais uma daquelas ideias impossíveis que acreditamos antes do café da manhã.

Achamos o mapa, sim, mas até nos acharmos... digamos que o mapa tinha todas as ruas, menos as que nós calhávamos de andar. Esquerda virava direita, Alexandre virava Afonso e tudo era em eslovaco. E a chuva caindo no frio de zero grau. E nada de centro histórico.

Em um certo momento, avistamos o principal ponto de referência da cidade: O Castelo, que ficava no topo de um monte e foi construído em meados dos anos 800. "Agora vai ser fácil", pensamos.

De repente, uma encruzilhada. 

À esquerda, um túnel que parecia seguir reto em direção ao pé do monte. À direita, um caminho desnivelado que se afastava um pouco do destino, mas talvez nos levasse para mais perto do centro. Afinal, aqueles dois eram os únicos pontos turísticos, poderíamos visitá-los em ordem invertida sem problemas.

"Eu acho que li num site que podia passar por um túnel para chegar no centro", disse meu irmão.

"Eu não lembro de ter visto isso", discordei, mas quem sou eu pra saber dessas coisas.

"Deve ser um atalho."

"Mas esse túnel ao menos tá no meio do mapa?"

"Até agora eu não achei, mas não dá pra achar nada direito aqui."

"Então, o que a gente faz?"

"Eu acho que a gente devia tentar o túnel, qualquer coisa a gente volta."

"É, tá bom. Realmente parece mais perto, e ao menos assim a gente foge da chuva."

Énouement. O sentimento agridoce de ter chegado ao futuro, vendo como as coisas andaram, mas sem poder contar ao seu eu do passado.

Entramos.

A princípio, não conseguimos ver onde o túnel acabava, mas como estávamos absortos em conversa, não nos preocupamos.

Em poucos segundos percebemos o quanto era estranho um túnel daqueles não ter nenhum carro passando, nenhum pedestre, nenhum movimento, nada. Só uma linha reta, escurecida e sem fim. Senti um arrepio. Era a kenopsia. Uma atmosfera sinistra, desamparada, de um lugar que normalmente é agitado com pessoas, mas agora está abandonado e silencioso.

Caminhávamos pelas laterais por costume, quando percebemos os trilhos de trem marcados no chão. "Ah, então está explicado", pensei. "Aqui é um túnel abandonado de bondes."

A cada minuto, nos afastávamos cada vez mais da entrada, sem qualquer estimativa de quanto faltava para emergirmos do outro lado. Naquele momento, tudo que havia era o túnel, o mundo exterior uma completa ilusão. Podíamos ter passado horas, dias, anos lá dentro, com a nossa percepção de tempo percorrido irrevogavelmente embaralhada. 

Foi então que ouvimos, ao longe, um som pavorosamente familiar.

Nos entreolhamos, e aceitamos nossas chances estoicamente. 

"Fica bem perto da parede", avisou meu irmão, levemente nervoso. Mal tivemos tempo para nos preparar.

O bonde passou.

Em altíssima velocidade.

Do nosso lado.

Era um túnel de uso exclusivo para bondes.

E depois do primeiro, aquilo virou uma congregação de bondes. Um à esquerda, outro à direita, dois simultaneamente, e nós lá dentro. E o túnel nem perto de acabar, o início longe esquecido. Todos passando perigosamente perto da nossa posição. Era preciso só um deslize e...

"Seguinte, vamos dar uma corridinha."

Corremos. Se você tivesse passado atrás de nós naquele momento, teria visto uma imagem bastante peculiar naquela manhã chuvosa de fim de inverno. Felizmente, você estava no conforto de casa e não precisou. Tudo bem, eu vou descrever mesmo assim.

O que você acharia se visse um homem e uma mulher correndo atrás do outro dentro de um túnel de bondes deserto, a uma distância remota da civilização?

Exatamente. Eu também me apressaria para salvar a indefesa mulher das garras do assassino da machadinha.

Há meses estávamos tentando escapar do túnel, desviando de bonde após bonde, sem saber o que nos aguardava do outro lado. De repente, uma fraca luz se aproximava no horizonte.

Era outro bonde. Voltando.

Mas depois, outra fraca luz deu sinal de vida. Era o fim. A luz do fim do túnel.

Alguns minutos depois, chegamos até lá e atravessamos os trilhos correndo, saindo pelo lado esquerdo.

Olhamos para o cima e encaramos o céu. Is this real life?

Na verdade, eu encarei o céu. Meu irmão encarou a paisagem, perplexo.

"Cadê o castelo?". Não havia mais nem resquícios do monte do castelo gigante. Não sabia mais nem em que direção ele deveria estar.

Estávamos no que parecia um cenário de guerra, tudo em reforma, muito longe de onde havíamos entrado. "E agora?", era o pensamento que nenhum de nós queria vocalizar.

Mas não precisamos. Fomos distraídos por outro som conhecido, vindo de dentro do bonde. Era um carro da polícia.

"Ah, DE REPENTE, pessoas que TRABALHAM aqui".

"Is everything alright?", perguntou o policial no volante, desconfiado.

Meu irmão ergueu as mãos imediatamente. "WE'RE BRAZILIAN. WE'RE LOST."

O policial então ergueu a sobrancelha, avaliando a situação por 1 segundo, e então sua cara se encheu de algo que os alemães chamariam de Schadenfreude, ou o sentimento de prazer derivado de assistir desgraça alheia. O cara queria muito rir da nossa cara, mas ele conseguiu se conter. 

Após explicada a situação, e o policial esclarecido que não podíamos ter entrado ali, ele nos apontou a direção de volta à vida em sociedade.

Se tivéssemos seguido à direita na rua desnivelada, teríamos chegado ao centro em 5 minutos.

Mas como havíamos escolhido o caminho de meia hora pelo túnel, agora precisávamos de mais 20 minutos até chegar ao centro da cidade.


"Uma ponte", meu irmão disse, numa reflexão mais tardia. "O site disse que o atalho era pela ponte."

"Não pelo túnel."

"Não."

"E que ponte era essa?"

"Eu não sei."

Caímos na gargalhada.

*

Essa foi a história de como eu quase fui atropelada por um bonde na capital da Eslováquia, num dia gelado e chuvoso do mês de março.

Espero que este relato tenha feito vocês terem vontade de visitar a Eslováquia. Vale a pena ir. (Uma vez.)

Em meio a grupos gigantescos de japoneses que um dia eu juro que vão dominar o mundo, encontramos uma cidade de charme decadente, decorada com estátuas divertidas em todos os lugares, e uma juventude considerável, pelos padrões europeus. O castelo, afinal, foi mais uma viagem, só que dessa vez estávamos no caminho certo e tinham pessoas por perto.


E se você for, não se esqueça: o atalho é pela ponte. 

Não pelo túnel.

De preferência, não pegue atalho nenhum e siga rigorosamente as placas, ok? Ok.

Pode perguntar mesmo, eles respondem em eslovaco, mas uma hora você vai acabar acertando.

*

Após essa experiência, tomei a liberdade de inventar a minha própria palavra:

Bratislava. O sentimento de estar perdido dentro de um túnel sem saída em um país desconhecido, sendo atacado por bondes de todos os lados, enquanto se procura o caminho para um castelo no topo de uma montanha.

É um sentimento bem específico, mas se o ser humano nomeou a anatidaefobia, que é o medo irracional de de estar sendo observado, seguido e vigiado por um pato, eu acho que a bratislava também tem espaço no nosso dicionário.

O túnel

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Viena, a prisão dourada de Sissi


Às vezes, eu tento imaginar como seria a minha vida se eu fosse uma princesa. Não uma princesa da Disney, sabe, daquelas com proporções corporais absurdas, amigos animais falantes e finais felizes musicais. Uma princesa mesmo, do século XVIII, sofrendo para respirar dentro do espartilho, viajando numa carruagem a caminho de uma corte desconhecida onde encontraria pela primeira vez meu noivo anão e minha futura sogra carrasca.

Fico imaginando o que eu faria então, diante dessa situação. Sorriria complacentemente, como a boa moça que minha governanta teria me ensinado a ser? Me rebelaria contra o sistema, à la Joana D'Arc? Ou tiraria proveito da situação e acabaria inventando moda na França, enganando meu marido tolo e mandando comer brioche se não tiver pão, num protótipo de Maria Antonieta?

Acho que não importa muito quem eu gostaria de ser, porque essas três mulheres foram assassinadas de qualquer forma, sorrindo ou não sorrindo, ainda que contrariadas, mesmo que com medo, mesmo sendo princesas. Sim, Joana D'Arc, Sissi, Maria Antonieta, todas entram na categoria de princesas, mesmo que tenham sido soldado disfarçado, imperatriz e rainha excêntrica, respectivamente. Afinal, se toda garota é uma princesa, conforme aquele famoso filme prega, esse conceito abstrato precisa se expandir, ganhar novas facetas, novos ângulos a serem analisados. Nenhuma garota é igual. Tudo bem, eu concordo totalmente. Mas só vou aceitar meu direito congênito de me intitular princesa assim que eu descobrir, de fato, o que significa ser uma. Não aceito responsabilidade à toa.

Em Viena, não encontrei minha definição de princesa, e nem vontade de ser uma, mas cheguei a outra conclusão interessante: na dúvida, confie no italiano (mas nem sempre). Passei um bom tempo tentando me lembrar como que havia chegado de Budapeste na capital austríaca, mas não lembro de nada dessa viagem. Por tudo que eu sei, um dia eu estava correndo com os cabelos ao vento no tempo ameno e agradável da Hungria, feliz e despreocupada, e acordei materializada numa cidade pretensiosamente enfeitada, gelada e cinza. Viena. Ou como eu gosto de chamá-la: "O lugar onde o vento literalmente faz a curva".


De malas e cuia no meio da Áustria, nunca me senti mais fora de sintonia do resto do universo. Era a primeira vez que eu visitava um país legitimamente do lado nazista na Segunda Guerra, e pode parecer pouca coisa hoje, mas não é. Existe uma carga pesada no ar, um elefante roxo no quarto que ninguém ousa mencionar. Morrendo de frio, parada na calçada tentando segurar um mapinha maroto com claras intenções de sair voando pro Pólo Norte, é assim que começa a minha primeira lembrança dessa cidade nem tanto inesquecível.

Não que a Áustria seja um lugar ruim, ou feio, ou de pessoas ruins, ou feias. Não é. Viena é majestosa com seus infinitos castelos e construções reais, cheia de gente do mundo todo, em especial negros e asiáticos, o que me fez pensar molecamente "Toma no OLHO, Hitler", que por sinal, também era austríaco.

Não existe absolutamente nada de errado com Viena. Nada, sabe, além da vibe. Turisticamente falando, se você estiver indo para lá, esteja preparado para fazer muitos passeios fechados sem poder usar a câmera dentro de museus e palácios e jardins chinfrins de uma dinastia que você provavelmente não conhece bastante ou não liga o bastante, a dos Habsburgos.

Pra mim, tudo beleza, eu adoro passear dentro de castelo e adoro a história da Sissi, que você provavelmente está se perguntando quem é neste momento, e não, não é a da música do Alexandre Pires. 

Em teoria, eu teria adorado Viena. Na prática, eu nunca conheci cidade mais chata. Tão chata que meus dedos começaram a se automutilar dentro da minha bota e eu tive que achar band-aids pra comprar num mercado em que tudo estava escrito em alemão, inclusive a palavra band-aid. Tão chata que a trilha sonora dos nossos passeios foi embalada por sucessos oriundos das profundezas do inferno do nosso subconsciente, pois era só o tédio aparecer que alguém começava a cantar "Oooh, Antônia brilha", o jingle da drograria famosa da esquina e, claro, principalmente, sem sombra de dúvidas, era só olhar um quadro da imperatriz que alguém irrompia o esperado "O NOME DELA É SISSI! SISSI!".

Palácio de Schönbrunn

Não me admira que nem meus dedos do pé aguentaram a pressão e tentaram saltar fora.

Sem muito pra fazer além dos mesmos roteiros todos os dias, minha mente embarcou numa viagem própria ao passado, tentando entender melhor aquela cidade que eu tanto estava desprezando... por que deveria haver um motivo, e um motivo muito bom para eu não estar apreciando aquela inestimável joia da monarquia, equiparada a da corte parisiense.

Meus devaneios me levaram de volta à infância, mais precisamente, àqueles dias tristes em que a minha mãe não aceitava assistir Cinderella de novo comigo pela quadragésima oitava vez, e colocava um DVD chato, longo, em outra língua cheia de rugidos, sobre uma garota bonita que se tornava imperatriz do império austro-húngaro: Princesa Elizabeth da Bavária. Para os íntimos, Sissi.

Hoje, eu assisto a trilogia de DVDs sozinha, com pipoca, por livre e espontânea vontade. A história em muito se difere dos acontecimentos reais, mas fazer o quê, é cinema mesmo. O importante é saber que Sissi era uma garota de espírito livre, que adorava a natureza e andar a cavalo e vivia no seu próprio conto de fadas rural... até o dia em que ela se casou com o Imperador Franz Josef, quando o conto de fadas paradoxalmente se tornou um pesadelo horrível.

Nem era ela a prometida, era a sua irmã mais velha, Helena, mas o imperador se encantou tanto com a jovialidade da adolescente Elizabeth que desafiou a escolha da mãe e decidiu-se pela outra prima, que gostava bastante dele ou nem um pouco, dependendo da fonte histórica. O fato é: não era para a Sissi estar ali.

Helena teria dado uma ótima imperatriz, divina, com seu amor às regras e ao protocolo, aos cabelos armados e vestidos sedosos, calma e serena e chata pra caramba. 

Mas ele foi inventar de querer a Sissi, então o menino teve que segurar o forninho.

Sissi ficava andando pelo palácio de pijama, descalça, fugindo de madrugada para cavalgar, encrencando com a sua senhora sogra madame Sofia por tudo, desrespeitando toda e qualquer regra estabelecida na história da corte. Depois de coroados, ainda por cima, Franz mal tinha tempo para acompanhar o "treinamento" real de sua esposa, deixando-a inteiramente sob os cuidados da mãe, que abertamente odiava a nora.

Odiava tanto que quando a sua primeira filha nasceu, "Sofia", a arquiduquesa tirou-a dos braços da imperatriz e foi embora com ela. Pra sempre. Ok, não pra sempre, mas ela fez questão de exigir que toda a educação da menina fosse encargo dela e a impedia vê-la, já que uma imperatriz digna é atarefada demais para se preocupar com essas coisas.

Depois disso, o inferno da vida de Sissi só piorou. Sofia morreu aos dois anos, Gisela não era muito fã da mãe por conta da avó, mas quando o herdeiro Rodolfo se suicidou aos trinta anos, a imperatriz não conseguiu superar a dor e passou a usar o preto até o final de sua vida, que veio não muito tempo depois.

Sissi foi assassinada por um anarquista italiano, Luigi Lucheni, em Genebra, que a princípio nem queria matar a imperatriz, e sim o herdeiro do trono da França, o príncipe D'Orleans, mas ele tinha ido embora no dia anterior. Numa tática que pode vulgarmente ser descrita como "Se não tem tu, vai tu", o italiano caminhou em direção à Sissi e a acertou com um estilete fino no peito. Com a quantidade de roupas que a mulher estava usando, ela nem sentiu dor ou percebeu a gravidade da situação, achando que ele estava apenas tentando roubar o seu relógio (sério). Ela correu para não perder o seu navio de volta para casa, mas uma vez lá dentro, desmaiou.

Após sua acompanhante conseguir desabotoar todas as camadas de vestido, percebeu que a imperatriz estava sangrando muito.

Sissi estava morta.

"Que depressivo", dizia o meu irmão ao explorar os castelos comigo, chateado por não poder tirar foto de nada. Vimos cartas que Sissi escrevia para os irmãos na Bavária com muita saudade, poemas sobre como ela se sentia um pássaro preso numa gaiola, de como ela sentia falta das montanhas, da família, da simplicidade, da liberdade.


A única felicidade que Sissi tinha era quando ela podia viajar. Ela adorava a Hungria, e numa manobra política surpreendente, conseguiu coroar o marido como Rei da Hungria com a sua influência, já que ela era aclamada pelo povo húngaro. Amava a Grécia, Portugal, a menina tinha bom gosto.

Viena para ela era como uma prisão, revestida de ouro e brilhantes. E por que não seria?

Talvez tenha sido isso. Talvez conhecer a verdade sombria de uma das minhas histórias favoritas tenha sido o catalisador de todos esses pensamentos ruins. Talvez a minha empatia pela imperatriz fosse tão grande que eu só conseguisse ver a cidade-palco de sua tragédia com os seus olhos.

Talvez.

Cortando meu caminho com dificuldade por causa do vento gélido, cheguei à Stephansdom, Catedral de São Estêvão. Por fora, parece uma cadedral europeia como qualquer outra, mas por dentro, é o lugar mais suntuoso que eu já vi. Impressionante mesmo e as fotos confirmam.



Eu estava animada para ir pra lá porque havia visto um video do John Green visitando as catacumbas da igreja e esse é o tipo de passeio que eu não podia perder. Na idade média, tinha tanta gente enterrada lá embaixo que Viena passou por uma crise de fé, porque as pessoas se recusavam a ir pra igreja com aquele cheiro horrível exalando.

Depois de tirar as fotos mais marcantes da minha carreira não-existente, vi um brasileiro com jeito de mineiro na frente da porta das catacumbas, falando com um bando de gente, alternando entre o português e o alemão. "Tá fechada, ué, fechada mesmo", ele dizia. Depois "Que loko, mano, maneiro". Ele falava de um jeito tão engraçado que dava pra notar um "xD" no final de cada frase dele. Um emoji humano.

As catacumbas ficaram para outro dia. Outra viagem. Outra vida? Que pena.

Outra coisa que vale se comentar sobre Viena é o cardápio, sim, as comidas típicas, regionais e únicas: Schnitzel e Apfelstrudel. Ou traduzindo: bife empanado e torta de maçã. Nota-se a criatividade do povo austríaco nos pequenos detalhes da vida.

É por isso que todo dia nós praticamente almoçávamos e jantávamos no mesmo lugar, um restaurante italiano caseiro perto do nosso hotel, onde nós fizemos amizade com o dono. A comida era muito boa e ele sempre vinha conversar com a gente em italiano, depois que a gente passou uns 6 minutos no primeiro dia tentando decidir como que a gente ia pedir a comida, já que a gente não falava alemão e ele não tava falando nada em inglês. É sempre um desespero na Europa quando isso acontece.

Depois de treinar muito bem o nosso pedido, até a parte de dizer que a coca era sem limão, mas com gelo, ele ficou morto de alegre de encontrar compatriotas nessa terra cinza e constipada.

"Siamo brasiliani", esclarecemos.

"Brasiliani! Meglio!"

E pronto, foi Neymar pra cá, Pelé pra lá. Eu lembro de ser feliz lá comendo bem. Pois é, pequenas felicidades da vida. Talvez um dia eu volte só pra dar oi. Talvez isso faça valer a pena.

"Os austríacos são estranhos," ele disse, fazendo o icônico sinal do dedo indicador girando perto da testa. "Lelés", ele quis dizer.

Mas os europeus, em geral, tem um senso de humor distorcido, além de outras coisas. Visitamos o primeiro parque de diversões da Áustria e o Madame Tussauds que ficava lá (pra nunca mais). O parque tinha algumas atrações que eram morte certa, do tipo PERIGOSÍSSIMO mesmo.

Eu tenho pesadelos com a casa mal-assombrada de lá até hoje, e olha que eu nem entrei. Era uma coisa do capiroto, que deveria ser proibida para menores de 80 anos, e proibida também para maiores de 80 anos para não causar infarto fulminante. As vozes do mal ficavam entoando etereamente convites em alemão para todos que passavam, e a trilha sonora era uma mistura de canção de ninar do demo e rock pesado ao mesmo tempo.

Apalpando a traseira da Imperatriz da Áustria

Ah, Viena.

Fugimos de ti por um dia e encontramos algo ainda pior. Bratislava, porém, fica para o próximo post.

Não era Sissi, Viena, é você.

Você é chata e quer que seja tudo do seu jeito, na sua hora, e se reclamar, vai ter em dobro. Você é a personificação do gelo inconveniente do final de março. Você come mal e tem hobbies ruins e não deixa que ninguém tire sua foto. Você é tipo eu, só que pior.

Eu, que não sou princesa e agradeço aos céus por não ser, pois isso me dá o direito de ser assim, do meu jeitinho plebeu único.

E você, qual a desculpa?


terça-feira, 16 de junho de 2015

A jornada para Budapeste


Depois de três dias perdidos no lugar onde Drácula perdeu a capa, nossa viagem para a Hungria não poderia ter sido mais anticlimática. Demos adeus à pacata Timisoara e seus pombos atletas, e seguimos adiante rumo ao desconhecido e desbravado interior do leste europeu.

Apesar de não colocar muita fé no nosso meio de transporte - um trem que parecia ter saído direto do túnel do tempo, lá de 1914 - o cenário era realmente de guerra. Conforme nos aproximávamos da fronteira com a Hungria, as cidades iam ficando cada vez mais desertas, as estações iam perdendo os tetos, os trilhos, as placas, e na linha do horizonte tudo que se podia avistar era mais e mais da maravilhosa paisagem seca e morta do cerrado.

Uma beleza. Não queria nem falar nada, pra não dar azar, já que tudo isso estava acontecendo do meu lado do trem e o meu irmão estava ali, tão tranquilo, tão absorto em sonhos com o sorvete do Segafredo. Não precisava preocupar ninguém, uma hora a vista iria melhorar. Né?

A vista

Não. O que aconteceu, na verdade, minutos depois, foi a coisa mais assustadora que eu já tinha visto na vida, e essa nem o meu irmão não pôde ignorar. 

Imaginem assim: nos filmes, especialmente nos desenhos do Papa-Léguas, existe aquela linha dos trilhos do trem, por onde eles passam em altíssima velocidade, certo?. Pois é, em uma linha concorrente a esse negócio, existe uma estrada para carros normais, e a única coisa que pode impedir que um carro seja esmagado acidentalmente por um trem andarilho é... (rufem os tambores) um semáforo. Um super, poderosíssimo, grandioso, destemido... semáforo. 

Eu sempre achei que isso fosse coisa de filme mesmo, não que eu ache que as pessoas não devam respeitar o semáforo em um mundo civilizado, mas é que ninguém deveria, em hipótese alguma, ter que confiar num bendito semáforo do século XIX pra avaliar a hora que elas podem atravessar uma encruzilhada sem morrer.

De fato, ou a pessoa confiou, ou ela não respeitou, porque da janela do meu lado do trem pude ver um carro passar por nós, do nada, completamente destroçado, capotado, esmagado, na direção oposta dos trilhos.

Eu não conseguia acreditar nos meus olhos, já que aquela cena tinha surgido sem qualquer explicação, sumindo tão rápido quanto apareceu, quebrando a paisagem amarela que eu já estava há horas acostumada. Todo o nosso vagão entrou em pânico, já que pela posição que o carro havia parado, ele deveria ter sido atingido pelo trem logo na nossa frente.

Não tinha como ninguém ter sobrevivido. Do lado do meu irmão, de repente surgiram diversas vans, ambulâncias, carros de polícia, todos os repórteres da Romênia, todo mundo tentando entender o que havia acontecido. E o nosso trem passando.

E o nosso trem passou.

Até hoje não sei o que aconteceu: quantas pessoas haviam no carro, onde foi parar o trem atingido e qual era o seu destino final, o que os passageiros desse trem estavam pensando, se o maquinista se sentia de alguma forma culpado, se o motorista estava bêbado, se ele sabia que o pior podia acontecer e ainda assim resolveu acelerar... Não sei, não sei de nada.

Lembro de ter tirado os fones, sem clima para ouvir qualquer outra coisa, e ter contemplado a viagem naquele momento.

Quem se aventura até os confins da Romênia quando existem países muito mais aceitáveis para se visitar não é o seu turista comum, de guia de viagens e cartões portais. Ele não procura entretenimento, não procura maquiagem; procura liberdade.

A liberdade, assim como todas as outras conquistas, tem um preço. Não significa poder ir aonde quiser ir e ser quem você quiser ser, não é o conceito romantizado de correr descalço num campo de centeio, imparável, invencível, imortalizado.

Ao invés disso, ter liberdade significa aceitar que a Realidade Do Mundo vai lhe acompanhar aonde quer que você for, e que cada decisão sua ocasiona consequências, e que essas consequências são irradiadas em cadeia e afetam pessoas ao seu redor, em São Paulo, na China, e que você, numa escala cósmica, é tudo, menos invencível, imparável, imortal. Na verdade, você é muito pequeno. Muito miudinho. Metade de um grão de areia. E o pior: você sabe disso.

Ser livre é ver o trem chegando pelo retrovisor do carro e acelerar. O trem pode bater ou não, você pode morrer ou não, mas o fato de que você fez a escolha é que faz a diferença.

Liberdade é um conceito assustador.

Se eu tivesse um cinto, nessa hora eu o teria apertado. De qualquer forma, me encolhi um pouco, pela primeira vez em muito tempo, frente ao caminho desconhecido.

"Gehshfsdhskfha, prsj sja," disse o funcionário barbudo, que havia se materializado de pé ao meu lado, em sua língua inteligível de rosnados.

"What?" Fui catapultada para 100 quilômetros de distância da minha linha filosófica de pensamentos.

"Tsdçlkasjfhssbmvkcshaga. Urfts," ele insistiu.

"Carlinhos, eu acho que ele quer os passaportes."

Havíamos ultrapassado a fronteia com a Hungria, e como de costume, o moço precisava carimbar os nossos documentos para entrarmos legalmente na União Europeia, cujo país é seu membro integrante desde 2004.

Pensem só na situação do homem. Nós ali na divisa entre a Romênia e a Hungria, no final da tarde, num trem advindo do primeiro surto da Revolução Industrial. Ele deve ter olhado "República Federativa do Brasil" e pensado "Putz. Vou precisar de outro carimbo." 

Eu digo "deve ter pensado", porque na vida real ele só fez outro grunhido, um gesto com as mãos, e foi embora com nossos passaportes.

Foi embora pra longe mesmo, pra outro vagão, talvez pra fora do trem, nessa cidadezinha no meio do nada de Masdhsdsoy Hsjhsduya, ou algo do tipo. Eu e o Carlinhos ficamos nos olhando com uma cara levemente desesperada, rindo nervosamente.

Pensem só na nossa situação. Aquele era a única comprovação da nossa existência e ninguém ali parecia falar inglês. E se a mensagem não chegasse ao maquinista e ele fosse embora sem a gente ter recebido os passaportes? Pra onde o cara tinha ido? Será que a gente ia ser preso? Pra quem eu iria ligar?

"Ele já deve voltar."

Tá. 20 minutos e sem sinal do cara. Já estava pensando em chamar a menina que tava assistindo anime com legenda em húngaro para ser a minha testemunha ocular do acontecido, quando o senhor da barba branca finalmente retorna, meio exausto.

"Bskosdjiahsagaf. Ugh. Friapjafhag."

"Thanks."

Voltei a respirar.

***


Ao chegar em Budapeste, estação Keleti, no meio da noite gelada, não parei muito para analisar os meus arredores. Só queria saber como que nós íamos achar o hotel no meio daquela infinidade de consoantes e acentos que é a língua húngara e suas placas.

O que havia percebido de relance era que a região da ferroviária era bem localizada, cheia de Burger Kings e ruas movimentadas, com uma vibe meio madrilenha, meio Buenos Aires.

Não estava dando muito para Budapeste até agora, mas também não estava decepcionada com o que estava vendo. Talvez esse seja o segredo das paixões mais arrebatadoras: chegam como quem não quer nada, sem expectativas, e de repente bum na sua cara, você foi flechado, sem devoluções.

Com Budapeste foi assim.

Já instalados, meu irmão hiperativo disse que queria passear, e como eu estava com muita fome, não contrariei. Ele disse que tinha visitado um restaurante com a namorada dele, que morou um ano na Hungria, e que lá tinha uma vista muito "legal", a melhor de Budapeste. Ok, legal já tá joia pra mim.

Pegamos o metrô, fizemos baldeação, enfrentamos o vento gélido do final de inverno, subimos as escadas da estação e demos de cara com isso aqui:



"Carlinhos," chamei. Ele estava meio agitado, olhando para os lados como se procurasse alguma coisa. "Carlinhos. Se essa é a melhor vista de Budapeste, então eu acho melhor a gente voltar pra Timisoara, olha."

"Não, não. Era por aqui. Será que a gente pegou a saída errada?"

"Eu que vou saber... Caramba." 

Nesse "Caramba", eu virei de costas. Eu estava de costas para a melhor vista de Budapeste esse tempo todo, admirando a tal igrejinha e o ponto de ônibus. Eu vi isso aqui:


Esse é o Parlamento Húngaro. Gigantesco. Impressionante. Monumental. O lugar que eu poderia passar a vida toda vigiando sem nunca cansar. Minha construção preferida de todos os tempos. Prazer.

E com isso, o eco de Timisoara, fresco em minha mente, foi desvanecendo até apagar-se de vez, com o raiar do dia.

***

Toda vez que você pensar que Budapeste é um nome engraçado, pense que poderia ser pior.

Era uma vez duas cidadezinhas separadas por um rio: Buda e Peste. Perto delas, havia O'Buda.

Um dia, construíram uma ponte.

Essa é a história de Budapeste.

Buda era a parte nobre da cidade, construída nas colinas, onde ficavam os castelos dos grandes reis húngaros. Peste era, bem, a parte do comércio, onde ficavam as pessoas comuns, mas não é devido a isso o seu nome. Hoje, Peste é a parte mais bem desenvolvida, mas percebe-se que ainda há muita rivalidade entre quem nasce do lado de cá ou de lá da ponte.


Ponte esta cuja versão mais recente foi construída em homenagem à Imperatriz Sissi da Áustria e Rainha da Hungria, mas não está na hora de falar sobre ela ainda. Durante a Segunda Guerra, todas as pontes adjacentes foram destruídas, menos essa, pois até os aliados conseguiam respeitar a sua imponência e significado para o povo húngaro.

Afinal, a Hungria era a menina dos olhos da Imperatriz, e não é muito difícil entender o porquê. Budapeste é linda, alegre, viva. Tem uma arquitetura surpreendentemente diversa: parece parisiense, grega, bizantina, mas com um quê próprio envolvente e cativante.

O único problema da Hungria? O húngaro. Mesmo assim, é um destino que eu recomendo para qualquer alma exploradora, que quer passar uma lua de mel consigo mesma. Ou com alguém, não estou julgando. Só com um pouco de ciúmes.

Na Avenida Andrássy, me senti caminhando pelas Champs-Elysées. Passeando pela Praça dos Heróis, ao lado haviam prédios inspirados no Parthenon grego e nas mesquitas de Istambul.


Não sei que lado era mais bonito: se era na antiga Buda, com o majestoso Palácio Real e suas infinitas colinas, ou se era em Peste com o seu Parlamento e a Basílica de São Estevão, ou se era o próprio Rio Danúbio, que corta todo o país e que é verde, por sinal, e não azul. Não alimento rivalidades, me apaixonei pelo inteiro, por igual.

Visitamos a Casa do Terror e testemunhamos as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra e a ocupação soviética conseguinte, e como o povo húngaro prosperou apesar das adversidades.

Visitamos as termas romanas e nos impressionamos com a antiguidade daquele local e da inteligência e astúcia daqueles que vieram antes de nós.

Visitamos o zoológico e eu finalmente conheci um canguru.

Lá, também fiquei cara a cara com a fera das selvas, o tigre. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Eu acho que a gente se entendeu. Eu ali, invejando sua grandeza e elegância, e ele lá, invejando a minha liberdade.


Liberdade é um termo relativo. Em relação a ele, eu tinha. Em tempo integral.

Mas antes de conhecê-lo, eu já tinha também, sem nunca ter percebido o real motivo de estar naquele trem. E fiz a escolha certa.

Desacelerei.

domingo, 29 de março de 2015

Timisoara, um errinho adorável?


Quem pensa em Europa, pensa em quê? Se você respondeu "Timisoara, uma pequena cidade no interior da Romênia", então provavelmente você é um dos doze brasileiros que já devem ter visitado essa vibrante e badalada terra (que tem uma só praça em funcionamento e oito restaurantes abertos, que eu tenha visto) ao decorrer de toda a história da humanidade.

O legal de Timisoara é que não dá pra chegar lá nem por acidente, nem que você esteja muito perdido, caminhando a esmo durante anos, nem que você feche os olhos e pegue qualquer voo aleatório no aeroporto de Madri, de tão remota a sua localização no nosso planeta. Você precisa querer muito chegar lá. Precisa pedir de coração pra estrelinha mais mágica do céu, chorar e dizer "por favor, por favor, por favor, me leve para Timisoara na Romênia". Só assim você será atendido.

Não foi exatamente assim a história de como eu cheguei na Romênia, mas posso afirmar que foi algo bem parecido.

Ok, vou contar. Meu irmão e eu queríamos muito fazer um roteiro cheio de lugares incomuns, inusitados, inexplorados, todos esses adjetivos cheios de "ins", só pra fazer currículo mesmo. Já havíamos decidido por Hungria, Áustria, Eslováquia, todos esses países super amados e reconhecidos, e Espanha, só pra não enlouquecer e morrer de fome no processo.

Mas faltava alguma coisa, ou melhor, ainda sobravam alguns dias de viagem pra preencher. Então, com muita calma, serenidade e concentração, analisamos o mapa da Europa Oriental para ver quais as opções elegíveis e mais próximas de Budapeste que podíamos dar uma chance e visitar.

Nesse momento de indecisão, demos de cara com a Romênia. Não foi uma coisa muito difícil ou uma coincidência muito grande, já que eu não sei se vocês nunca notaram, mas a Romênia é, assim, muito grande. Grande para padrões europeus, de qualquer forma, pois só no meu estado aqui do Amazonas  cabem os territórios inteiros de Portugal à Alemanha, facim, facim.

Romênia, devemos ter pensado ao mesmo tempo. O que vem na sua cabeça ao pensar na Romênia? Lua cheia, filmes de terror, Conde Drácula, Pensilvânia. Pensilvânia não, Transilvânia. A terra dos vampiros. Que destino legal. É pra lá que eu vou.

Assim, começamos a pesquisar todas as maneiras que podíamos chegar em algum lugar que fizesse ao menos "parte" da Transilvânia, que é realmente o nome da região central do país. Descobrimos Brasov, uma cidadezinha vizinha do estonteante Castelo de Bran, conhecido também como Castelo de Drácula, devido à obra de Bram Stoker, que alimentou o mito de que lá um dia residiu o Príncipe Vlad Tepes, governador da Válaquia, "O Empalador". Cara super gente fina.

Castelo de Bran, fonte: Google

Porém, mas, entretanto, todas as formas de locomoção para chegar lá seriam impraticáveis e muito caras. Voos só saindo de Bucareste, do outro lado do país, trens teco-teco de mais de 9 horas e... se quiser, dá também pra pegar um carro e sair dirigindo na simpática noite romena, cheia de lobos uivando, morcegos morcegando, entre outros sons ululantes que podem ser encontrados na floresta.

Não que os barulhos assustadores e paralisantes fossem um problema e o terror psicológico me abalasse de qualquer forma, mas imagina ter que ler PLACAS em romeno? Eu podia parar na Ucrânia, com sorte na área do cessar-fogo.

Uma curiosidade sobre o romeno aqui em parênteses (metafóricos): ele é bem parecido com o português, já que as duas línguas possuem como raiz comum o latim, a única diferença mesmo são (todas) as palavras. E o que eu sabia de romeno quando eu cheguei lá, pra me ajudar? Só aquela parte da música original romena que o Latino copiou do "Maia hi, Maia hu, Maia ho, Maia ha ha". E acabou que isso nem era romeno mesmo, como depois descobri. Era uma espécie de "Tchetchererê Tchetchê" que não significava porcaria nenhuma, tava lá só pra preencher espaço e fazer lavagem cerebral nas massas.

Pois é, eu estava ferrada. Nunca tinha viajado pra um país antes sem ao menos aprender como falar coisas importantes, como "Não, obrigado", "Sim, por favor" e "Onde fica o banheiro?".

Mas estávamos decididos pela Romênia. Ela havia nos encantado virtualmente com seus castelos decadentes, paisagens belíssimas e arquitetura austera ao estilo soviético.  

E foi assim, meus amigos, que eu cheguei em Timisoara, numa manhã singular de sol, após um voo que poderia muito bem ter inspirado a canção "Se a canoa não virar", quase revirando permanentemente os olhos pra dentro do cérebro por causa de um menino de 3 anos senegalês vestido de smoking.


Sim. Tive uma sorte tremenda nessa viagem de sempre conseguir sentar perto de criaturas cuti-cuti que choraram em alguns momentos dos voos, compreensivelmente por causa de seus frágeis ouvidos.

Esse guri foi a exceção.

Ele não chorou na hora da decolagem. Ele berrou. O voo inteiro. De duas horas e meia. Sem parar. Só de birra.

Eu olhava para os lados e sentia que todos pareciam ter adentrado um estado mental profundo e inatingível, em outro plano espiritual, tamanha era a dor compartilhada por nós passageiros e tripulação. A mãe? Só gritava com ele, às vezes até mais alto, em um dialeto gutural que não fazia nada para apaziguar o xamã que havia baixado no garoto.

Olhando para trás, acho que o momento que eu deveria ter desconfiado do que nos aguardava deveria ter sido naquele aeroporto mesmo, quando a moça também super simpática da imigração analisou por 5 minutos o nosso passaporte e perguntou sem rodeios, numa voz grossa: "O que vocês estão fazendo aqui?"

Olhando mais pra trás, acho também que essa foi a pergunta que mais escutamos a viagem inteira. Não consigo entender o porquê.

Já no hotel, deixamos nossas malas e resolvemos começar a explorar com o nosso mapinha maroto. Na Internet, já tinha pesquisado com dificuldade algumas imagens realmente impressionantes da segunda (ou terceira ou quarta) cidade mais populosa da Romênia, dependendo da fonte.

Demos de cara com isso aqui:


A cidade inteira estava em estado perpétuo de obras. Parecia que eu tinha aterrissado no Brasil em período de Copa, de novo. Na verdade, o que parecia mesmo era que eu tinha aterrissado em 1945 e que a Segunda Guerra tivesse sido semana passada.

Mas o que não estava em obras era muito bonito, dava pra perceber o potencial. Por exemplo, o point da cidade, a Piata Victoria:


Aqui era onde ficava a maior concentração de restaurantes da cidade inteira: um Mc Donald's, um FKC, um Segafredo e um empreendimento local, o incrivelmente badalado Lloyd's, onde os velhinhos da alta sociedade iam dançar ciranda à noite e que vivia tão constantemente "reservado" que tivemos que comer lá fora, no frio. Pelo menos a comida era muito boa e o leu é uma moeda barada.


Outro espetáculo que presenciamos na praça foi o Show dos Pombos de Timisoara, que é grátis e está em cartaz todos os dias, a cada sete minutos.

Funciona assim: nessa praça, têm muitos pombos, o que é um eufemismo para "eu nunca vi tantos pombos na vida quanto nesse lugar". Tem criancinhas que os perseguem, velhinhos que os alimentam, a coisa toda. É uma calmaria só, cena de filme. Mas a cada sete minutos, o pombo chefe deve gritar pros seus companheiros: "EI, RAPAZIADA, BORA DAR UM ROLÉ", e TODOS eles levantam voo ao mesmo tempo e começam a fazer uma panorâmica pelo jardim, literalmente dando uma voltinha até ficarem satisfeitos e pousarem no mesmo lugar como se nada tivesse acontecido.

É meio assustador, but again, estamos na Romênia.

Aqui vocês podem entender mais ou menos como essa bizarrice acontece:



Era uma visão, toda vez. Ah, minha querida Timisoara, que se pronuncia Timixoara, como toda palavra com S em romeno. Ah, Timisoara, com todas as suas excentricidades e particularidades, prédios à la mistérios do Scooby Doo, ruas escuras e sorvete gostoso, fico feliz em ter te conhecido.

Pode não ter sido a melhor escolha do mundo, e sim, pode ser que tenhamos nos perguntado frequentemente de quem foi mesmo a ideia de ir pra lá, mas não me arrependo de um instante.

Talvez meu irmão se arrependa da vez que ele entrou na jacuzzi "para mulheres" do hotel porque ele não leu a placa, mas eu? Mesmo tendo passado um dia a mais que o devido, mesmo conhecendo hoje a cidade como a palma da minha mão, que é muito pequena, por sinal, eu, euzinha, eu mesma posso afirmar com a mais pura verdade que... é, amo muito Timisoara, essa pequena cidade no interior da Romênia, que me encantou não apesar de todos os seus defeitos, mas por causa de cada um deles.

E se um dia eu planejo retornar? Não sei. Mas vai que os pombos sentem minha falta.


terça-feira, 24 de março de 2015

VOCÊ ESTÁ AQUI


Nos últimos dias, tenho acordado às 7 em ponto, agitada e com resquícios de uma tosse confusa, que não sabe se quer gripar ou só fazer escândalo, como pequenos garotos do Sudão do Sul vestidos de smoking num voo para o interior da Romênia. Estou aqui, ela parece dizer, e quero meu xarope.

Sou complacente, ou melhor, refém, assim como me senti naqueles 5 minutos de pânico em outro avião: "Será que são... ou não são?" e atendo seus comandos. Dou xarope, tomo água, engulo a tal da Vitamina C e tento pegar no sono novamente quando percebo que ela ficou distraída. Impossível.

Não acordo às 7 por causa da garganta, embora a chata incomode bastante, não é isso.

É que dizem que o fuso horário do nosso organismo leva um dia para se reacostumar a cada hora perdida ou ganhada em viagens longínquas, e eu tenho mais ou menos 5 ou 6 horas na frente de Manaus que já me fazem acordar com desejo de almoçar qualquer coisa à la Carbonara.

Fato é, acordo às 7 porque acho que já são meio dia e sinto que daqui a pouco minha mãe vai voltar a ficar desapontada com meus hábitos (mais três dias e eu volto ao normal, nada que é bom dura pra sempre). Só assim mesmo para enganar o meu cérebro. Mas ainda tô de férias antes da faculdade, então tudo legal. Por enquanto.

Explicações e tossidas à parte, sinto ter gerado mais perguntas do que respondido nesses últimos (todos) parágrafos. Isso porque eu ainda nem comecei a falar do Burger King. Ou dos pombos. Ou das doze lapadas que aquela mulher levou na bunda, feliz.

Viagem faz isso com a gente. Cria milhões de histórias que nunca fariam sentido sem ser vividas ou descritas nos mínimos detalhes, ou que nunca aconteceriam caso nós nunca tivéssemos partido.

Ou aconteceriam e nós nunca teríamos percebido?

Alguém sábio disse, uma vez, que as pessoas viajam para observar, em fascinação, o tipo de pessoas que elas normalmente ignoram em casa.

Envergonhadamente, admito que esse pensamento me assombrou por boa parte da viagem, toda vez que acreditava estar vivenciando uma cena única, uma emoção e um estado de espírito singular, interagindo com alguém genuinamente especial naquele lugar novo. Havia em mim um sentimento de culpa incômodo, por raramente me sentir tão estupidamente feliz assim em situações normais. Seriam eles especiais ou estaria eu atenta? Qual a explicação? Era como se o mundo inteiro estivesse sussurrando "Estamos aqui" e eu finalmente pudesse sussurrar de volta "E eu também", no meio da multidão.

Estivemos aqui
Fiz paz com essa ideia um pouco tarde demais, talvez exatamente na hora certa, no aeroporto de Lisboa, uma hora antes de embarcar para casa.

Já é bem conhecido o meu encantamento pelos longos corredores desse aeroporto, que é o meu preferido no mundo inteiro, por ser ao mesmo tempo tão longe e tão perto da pátria e por ser uma porta de entrada para essa terrinha tão própria, tão ela mesma, tão parecida e tão diferente, que chega a ser uma segunda pátria, uma casa longe de casa, talvez, um dia, uma casa por si só.

"Quando chegares, não te esqueças de onde partiste", o aeroporto me aconselhou antes de embarcar de volta.

Hoje, após mastigar por muito tempo esse chiclete na minha cabeça, percebo que o cartaz não só significava que, quando em Portugal, não deveria esquecer da minha casa no Brasil. Ele também queria dizer que, quando em Manaus, não deveria jamais esquecer de como me senti em Lisboa.

Ou seja, guardar com carinho todos os lugares que já passei e que já passaram por mim. Já era verdade mesmo durante a viagem, percebi: quando em Viena, de jeito nenhum conseguiria esquecer minha experiência em Budapeste, quando em Timisoara, aprendi a apreciar as diferenças entre o leste e o oeste, ou quando na capital gelada e ventosa da Eslováquia... francamente, só conseguia lembrar de todos esses lugares e pensar o quanto gostaria estar lá em qualquer um deles em vez de perdida no frio. Mas como a Elsa de Frozen bradaria em notas perfeitas no nosso querido português portuga: "Já passou, já passou."

Enfim, deixei de me sentir culpada momentaneamente por sentir e absorver ao máximo tudo de estrangeiro ao meu redor. Espanha, Romênia, Hungria, Áustria, Eslováquia, um pé atrás do outro, uma fronteira por vez. Percebi que não existem terras estrangeiras, e sim viajantes estrangeiros, e que a lição não era sobre o lugar, e sim sobre mim.

Sobre entender que ser viajante é isso, é assinar um contrato em que se aceita viver com a alma espalhada por aí, cheia de pedacinhos se soltando a cada novo destino, e que tudo bem viver com essas faltas, embora não seja uma escolha sem seus sacrifícios. 

Mas tudo vale a pena nesses breves momentos no longo filme da vida em que os espaços vazios se preenchem e transbordam de plenitude não só a cada retorno, como a cada despedida, quando o mundo todo parece dizer "Você está aqui. O caminho também é um lugar." e você, finalmente, está satisfeita.