domingo, 11 de dezembro de 2016

Uma retrospectiva introspectiva


Eu era (mais) jovem e achava que o mundo inteiro me receberia de braços abertos e com um manual de instruções. Não aconteceu exatamente assim. Sai ano, entra ano, e eu aqui continuo a enfrentar o meu maior e mais longo desafio como membro ativo da sociedade: o pavor de não parecer um ser humano bem ajustado.

Reconhecendo o meu privilégio de contar com experiências maravilhosas proporcionadas por uma família financeiramente estável e que só deseja que eu seja feliz, por muito tempo me senti culpada por ser "assim", por algum motivo incapaz de aproveitar plenamente as oportunidades que a vida me entregava, sem conseguir tomar as rédeas do meu futuro.

Mas nem sempre foi desse jeito.

Foi logo após do aniversário da décima sexta pirueta que o planeta Terra deu ao redor do Sol após o meu nascimento. Eu estava vivendo sozinha na terra dos reis e rainhas que definiram o rumo dos acontecimentos que vieram a marcar a narrativa deste mesmo planetinha azul no último milênio - Londres. A cidade era grande demais e eu, diminuta. Graciosa onde eu era inadequada, tradicional onde eu era exceção, firme e estável como os leões de pedra do rio Tâmisa. 

E eu? Eu estava lá no meio, existindo no meio da multidão, tentando não atrapalhar o fluxo.

E aí, aconteceu. E aconteceu de novo. E de novo. E continuou acontecendo. Algumas vezes eu soube lidar, muitas outras não. Peguei o ônibus errado e fui parar em outro distrito, perdi o trem à noite no meio da nevasca e me vi sentada no final da linha, fui abraçada por estranhos na rua e achei que estava sendo assaltada, paguei por coisas desnecessárias porque não consegui dizer não, deixei de comer em vários lugares por não conseguir captar como pedir a comida sem chamar atenção, não participei de vários programas divertidos por não saber como agir normalmente, deixei de fazer amigos por não acreditar que alguém realmente fosse ter interesse em me acompanhar na minha jornada. Eu estava meio... fora de controle. Um tucunaré fora do Rio Solimões.

Arfando. Hiperventilando. Sentando no chão da estação. Gaguejando e chorando e desistindo e levantando e aprendendo. Vaguei as ruas daquela cidade milenar com a minha câmera e o meu bloco de notas dia após dia e construí minhas memórias incríveis mesmo assim, no meu ritmo, nos meus termos - com as minhas difíceis limitações.

A ansiedade é um mal terrível e silencioso, que vai corroendo por dentro todas as vontades e sonhos e esperanças até transformá-los em uma massa uniforme e cinza, inquieta e sem emoções. Não, não dá para se "acalmar" ou "tentar não ficar nervosa" ou "pensar que é tudo coisa da sua cabeça". Não é assim que funciona. Muitos aqui com certeza se identificam com isso também. 

Mas nada que a minha cruel ansiedade tenha me privado doeu tanto quanto essa história que teve seu início frustrante em janeiro de 2013 e finalmente encontrou o seu final feliz em fevereiro de 2016, quatro anos depois. História de superação? Nem tanto. Mas uma conquista válida mesmo assim.

E ela tem tudo a ver com um certo pintor impressionista holandês.

Quando eu tinha 15 anos e já apresentava sinais de um gosto um tanto quanto duvidoso para homens, me descobri apaixonada por Vincent Van Gogh - sim, o pintor. A vida dele me fascinava e eu passava horas na Internet assistindo documentários e lendo livros das cartas de correspondência dele para sua família e colegas. "Noite Estrelada" era a minha junção de cores e formas predileta em todo o universo - e existem rastros dessa fase inclusive neste mesmo blog, que felizmente já está aqui há 7 anos tornando públicas todas as minhas obsessões adolescentes.

Sendo assim, no momento em que pisei na Inglaterra, sabia que precisava visitar o museu de arte da National Gallery, onde estão expostas várias da obras do Van Gogh. Mas o que acontecia ao invés disso diariamente era mais ou menos assim: 

Hoje é o dia em que eu vou acordar, pegar o trem e o metrô, atravessar Trafalgar Square e entrar no museu. (Mas ninguém quer ir comigo, então talvez eu vá amanhã).
Hoje é o dia em que eu vou acordar, pegar o trem e o metrô... (Mas tá nevando e eu ainda não aprendi o caminho. Talvez amanhã.)
Hoje é o dia em que eu vou acordar... (Não consigo sair da cama. It's too much. Amanhã.)

Um dia, porém, acordei disposta e os sinais do universo pareciam auspiciosos, então fui. Tendo 1 pequeno ataque de pânico quando a moça da recepção me fez algumas perguntas sobre um panfleto que ela estava entregando, eu adentrei a ala principal e finalmente pude respirar.

Certo, pensei. Agora é só seguir as placas até chegar na exposição.

Mas as alas se estendiam e se aprofundavam e se intercalavam e eu fui me vendo cada vez mais perdida, no meio de hieróglifos egípcios e porcelanato romano. Onde está a bendita ala pós-impressionista? É só uma das pinturas mais famosas do mundo.

Horas se passaram. Eu não achei o quadro. Precisava ir para a aula e já estava exausta socialmente.

Tudo bem. Outro dia eu volto e procuro as pinturas. É uma questão de honra agora.

Uma semana depois eu voltei, dessa vez com um mapa em mãos. Estava completamente ignorando o fato de ter uma habilidade de ecolocalização pior do que a da baleia beluga do filme da Dory, por sinal. É só seguir o mapa. O mapa é claro e não mente e não é uma pessoa e não me julga se eu errar o caminho.

Não preciso dizer que não achei a seção naquele dia. Talvez ela nem existisse e fosse só uma construção da minha mente febril, talvez os corredores estivessem se duplicando, e se eu olhasse para cima as pinturas estariam com rostos borrados e tudo aquilo fosse produto de um sonho sadístico de uma mente com muito mal gosto, e pior de tudo - minha.

Tentei outra vez mas não passei da escada, de onde tirei essa foto.



Eu voltei para o Brasil naquele ano me sentindo um fracasso. Se ao menos eu tivesse perguntado para alguém, se ao menos eu tivesse engolido aquele pavor por 10 segundos, se eu não fosse tão... mas eu sou tão... e nunca vou... e ninguém pode saber.

Os anos se passaram e eu aprendi uma coisa ou duas sobre como ser um humano bem ajustado. Fale menos, sorria mais... não deixe ninguém saber a sua opinião de fato. Vai dar tudo certo porque você merece. #EntendedoresEntenderão

E a vida seguiu em frente, eu e a ansiedade caminhando lado a lado como eternas rivais que precisam da outra para sobreviver - Coringa do meu Batman, Moriarty do meu Sherlock Holmes, a bruxa do meu conto de fadas.

Nesse ano de 2016, então, não paramos um minuto. Mudamos de cidade, de estado, de faculdade, de curso, aprendemos a morar sozinhas, uma com a outra, 24 horas por dia. Tivemos que aprender a lidar com o fato de que a Disney era passado e que todo o resto empalidece em comparação, uma das poucas coisas que concordamos e lamentamos.

Mas no placar Eu X Ansiedade, inserido no jogo mortal Mundo X 2016, eu ganhei um ponto que me tirou do negativo e que ela (e o ano de 2016) nunca vão poder aceitar. Porque foi feliz demais. E assim eu durmo um pouco mais tranquila à noite.

Era Londres novamente, só que completamente diferente. Era Nova York. Eu estava mais velha, mais vivida, e não estava sozinha. Eu estava realizada, feliz, e melhor - eu não estava esperando.

Eu aprendi a falar em público, a esconder o meu pânico, a entrar em estabelecimentos e pedir por ajuda. Aprendi a let go e ser livre de vez em quando e não ter medo do ridículo. Aprendi a iniciar conversas, a abrir contas no banco, a ligar para marcar as minhas próprias consultas médicas, a ir ao cinema sozinha e responder pelos meus próprios erros.

Parecia até que eu tinha vencido.

E eu venci mesmo, naquele dia - em que estávamos comemorando um trabalho bem feito numa das empresas mais influentes do mundo, lembra? Só aproveitando a companhia de amigos e a cultura da cidade mais cosmopolita do mundo, sem a austeridade de Londres sufocante ao redor.

Não era a National Gallery, mas era o Museum of Modern Arts, e de repente, sem aviso, entre uma gargalhada e outra, eu havia chegado na ala pós-impressionista. Sem ao menos procurar. Assim, de mansinho, como quem não quer nada, como um reencontro de uma amizade sincera perdida com o tempo.

Lá estava ela. A Noite Estrelada.

Onde você esteve esse tempo todo?, ela parecia me perguntar da sua moldura.

Eu? Eu estive caminhando lenta, mas certamente, em direção a você.

Naquele dia, a Ansiedade ficou calada no meu subconsciente em sinal de respeito, pois ela sabia o quanto aquele momento era importante para o meu progresso narrativo. Mas ela me forneceu, discretamente, lembranças de uma frase que eu pensava que havia esquecido:


E para 2017, o que eu desejo para todos nós? Um passinho atrás do outro. Certeza mesmo teremos de nada... mas que a visão das estrelas nos permita sonhar.

Parabéns por mais um ano vencido, pessoal. Até a próxima e boa noite.

segunda-feira, 21 de março de 2016

WOL Merchandise Hollywood Studios

Strollers, risos e papel Geami. Ou coisas que não voltam mais.

Quem fez, sabe: é difícil colocar a experiência do ICP em palavras. Como explicar o sentimento etéreo de ver seu parque fechado na madrugada e ter as luzes piscando só para você? As indagações loucas que passam pela cabeça quando se está sozinho e entediado no balcão? As risadas descontroladas por cada coisa besta ou até trágica? Eu só tenho uma palavra para nós, alumni: Michelina's. Em algum lugar desse país gigantesco, algum ser humano se identificou e está sorrindo, e é disso que eu estou falando, pessoal, - é inexplicável. Somos todos loucos.

Loucos para voltar.

"Voltar pra Disney? Mas já? De novo?" Não, amigos. Voltar pra casa.

Casa mesmo eu já tive duas na vida. Uma é um apartamento em Manaus, a outra é o Hollywood Studios. A primeira é bem normal e não tem fogos de artifício toda noite, nada emocionante, então acho que vocês não vão me impedir de falar só sobre a segunda.

E que casa legal, hein? Tem gente que não acha tanto assim. Essa casa sofreu umas perdas recentes e por enquanto está com um futuro incerto, mas quem seria eu para não defendê-la? Adeus, meu querido chapéu de feiticeiro, e que você descanse em paz. Adeus, Pizza Planet. Adeus, Osborne Lighs. E Honey, I shrunk the kids. E show chato dos carros. E aquele tour pelos bastidores. Adeus... caixa d'água? Esperem, parem, já tá bom... Oh não. Adeus, Right Block? SEGUREM O FANTASMIC! PROTEJAM ESSE BENDITO SHOW, NINGUÉM ENCOSTA!

Mataram até a minha work location? Como eu vou terminar esse WOL se a minha área nem existe mais? E os newcomers, como farão? O que farão?

Calma, gafanhotos. Positividade. Tudo vai dar certo no final. Tem coisas novas vindo, Star Wars e Toy Story, e posso afirmar que vão ficar bem legais. Ok? Enquanto isso, a gente espera (e reza).

Mas vamos falar de coisa boa? Vamos falar sobre Transtar? Tô brincando.

Vamos falar sobre como é trabalhar nesse parque colorido e um tanto confuso, mas sempre amigável e acolhedor.

Quando saíram as work locations e eu li Right Block, eu não lembrava o que era um stroller. Hoje eu não posso ver um stroller que me dá vontade de empilhar.

O Right Block, antiga locação do Sorcerer's Hat do Mickey, era composto por duas áreas: Oscar's Super Service, lugar onde ocorre o aluguel de strollers e ECVs, e as lojas à direita da Hollywood Boulevard: Celebrity 5&;10, Cover Story e The Darkroom.

                              

O que aconteceu foi que uma pessoa teve uma ideia muito brilhante um dia dormindo e resolveu que seria muito da hora juntar os dois lados da rua, pra sobrecarregar o cast e os gerentes, e deixar para o Right Block somente os strollers e uns carrinhos abertos na entrada, porque... por que não?

Eu não vi essa mudança acontecendo e ninguém ainda me explicou direito como as pessoas estão sobrevivendo, mas sei que na minha memória o Right Block continua sagrado e imaculado.

O que é um stroller?, você deve estar se perguntando. São aqueles carrinhos de bebê que as pessoas empurram pelo parque e tentam levar para dentro das montanha-russas, sem sucesso. E um ECV? É um scooter motorizado que serve para atropelar pessoas e fazer um barulho bem irritante quando engata a ré.

Mas não se intimidem por essas descrições bem sinceras, a gente passa por bons momentos ao lado deles. É uma relação amor/ódio, interdependência, cumplicidade. I know my way around a stroller.

Se você for merchandise e tiver treinamento de strollers, preste atenção, porque são essas as posições que você vai ter durante o dia em rotação:

Stacker/unstacker: Basicamente, empilhar, desempilhar e limpar strollers e cadeiras de rodas, conforme a necessidade. É divertido porque geralmente tem uma pessoa com você e é um trabalho nos bastidores, e acredite, você vai adorar trabalhar nos bastidores sempre que possível. Existem luvas e instrumentos de limpeza, então não se preocupe, não é nada difícil. É lá que acontecem as conversas mais profundas da sua vida com seus coworkers sobre a vida, o universo e tudo mais. I heart stacking (menos quando a pessoa ao seu lado é folgada, aí já viu).

Guest Distribution: você fica lá na frente recebendo tickets e colocando os crachás em cada stroller, ocasionalmente brincando com um bambolê como parte do seu trabalho. Todo mundo ama ser guest distribution (e todo mundo acaba sendo guest distribution o tempo todo, porque é preciso).

Classic Cars 1, 2 e 3: são as três caixas registradoras em que você faz o aluguel dos quatro modelos de transporte: single stroller, double stroller, cadeira de rodas e ECVs. Classic Cars 3 é a posição mais odiada por ter que lidar com contratos e pessoas mal humoradas que não entendem que só pode sentar uma pessoa no scooter e crianças não são permitidas. Sim, está totalmente carregado. Não, não pode devolver no seu hotel. Desculpe, mas temos uma lista de espera. Sim, eu entendo completamente, senhor. Não, eu não posso fazer nada. Sim, eu posso chamar o gerente. Não, o gerente também não vai poder fazer nada, pois temos uma lista de espera. E assim vai.

Classic Cars 1 e 2 são bem tranquilos por ficarem dentro da loja no ar condicionado, e também vendem bebidas geladas, remédios, coisinhas de bebê e pelúcias. Nunca me importava de ficar no 1 ou 2, exceto no início quando tudo era novo e a registradora me assustava. Mas a gente acaba pegando o jeito rápido.

Crossroads: inferno na Terra. Mentira, eu até gostava. É uma loja aberta em formato de círculo bem na entrada do parque e também era um centro de informação. O problema era que as pessoas chegavam lá e esperavam que você soubesse tudo, não só sobre o parque, mas sobre todos os parques e hotéis e ônibus e shows e reservas e fastpasses e personagens e se tinha o tal boneco em tal loja. Também alugávamos armários. Não dava pra ficar um segundo parado, o que é uma coisa boa, e agora com os fogos de artifícios de Star Wars, é a melhor posição no parque para assisti-los. Agora, quando estava -1 grau no sol, era um pouco difícil ficar ali sozinho congelando onde o vento faz a curva.

Valet: a todos a quem isso possa interessar, eu não sei dirigir. Claramente isso não interessou aos meus coordenadores, porque eu vivia nessa posição. Era um trabalho frequentemente simples e requeria que eu passasse muito tempo sentada, o que sempre é um alívio num shift de 14 horas. Basicamente, nós trazíamos os ECVs para o estacionamento on stage e levávamos as devoluções de volta para o backstage, onde estacionávamos os dito cujos perto das tomadas. Ser Classic Cars 3 com um valet ativo deixava o trabalho 60% mais fácil. Talvez hoje eu esteja preparada para dirigir de tanto que eu já estacionei carros na ré sem espelho.

Outra coisa sobre os valets é que se um ECV quebra em alguma parte do parque, é você que precisa levar o guincho com um scooter novo para fazer a troca, e isso sempre é no mínimo uma experiência muito interessante, porque quase nunca eles estão quebrados/descarregados de verdade e o seu trabalho todo pra chegar lá foi inútil, mas hey, pelo menos você passeou um pouquinho.

Lembro claramente de quando recebi a ligação dizendo que tinha um ECV quebrado dentro do Launch Bay no meeting com o Chewbacca num dia lotado. Demorei meia hora só pra chegar lá, passando com cuidado entre a multidão com a minha buzina ignorada, e o guincho se desmontando duas vezes. Depois, tive que passar por dentro da fila com um carro preso no outro em um espaço mínimo, ouvindo todo tipo de comentários de pessoas com um claro desejo de morte, porque ninguém saía da frente.

Aiai, hoje eu acho engraçado, Uma hora depois eu já tava achando engraçado, porque não tinha nada errado com o ECV e mesmo assim eu troquei e pedi desculpas pelo inconveniente, levando mais 20 minutos para voltar pro Oscar's. Cheguei lá e gritei "I DIDN'T KILL ANYONE!" e todo mundo vibrou. São as coisas mais absurdas que a gente sente mais falta.

Agora algo que eu definitivamente não sinto falta eram dos dias fatídicos em que eu fechava o parque no Oscar's e precisava recolher todas as cadeiras de rodas descartadas no estacionamento. Não, não existe um carrinho que faz isso, somos nós cast members que pagamos o pato. Pense em trabalhar um dia inteiro em pé e receber meia noite a função de ir lá fora com um colete neon, algumas vezes no frio, de empilhar cadeiras com rodinhas ruins e arrastá-las pelo estacionamento gigante da Disney até a locação delas dentro do parque. Não parece muito agradável, e realmente não é, mas se mandam seus colegas brasileiras juntos, é zoeira na certa.

                                                   
O que eu realmente gostava era de ir procurar strollers perdidos pelo parque depois que ele fechava. Você basicamente passeia sozinho pelo Studios com luzes todas acesas, e nesse último ano, com as incríveis Osborne Lights acesas, e basicamente tem as ruas inteiras só para você. Era emocionante descer a Sunset Boulevard duas da madrugada com a Tower of Terror coberta em neblina, me sentindo a própria mocinha de um filme de apocalipse zumbi. Lembro de estar atrás da Tower, completamente no escuro, quando de repente um gato preto pula do portão (a Disney solta gatos à noite pra combater os roedores). Só tive um pequeno ataque e corri.

Ou então, estava rodeando a Tower - porque tudo de sobrenatural sempre tinha que acontecer lá - quando de repente escuto um estouro altíssimo engolfando o silêncio absoluto da madrugada. Estavam soltando fogos de artifício num parque que NÃO tinha show de fogos. Dá pra imaginar o meu susto. E essa é a história de como estavam ensaiando para a estreia do Symphony of the Stars de Star Wars.

Então, como vocês podem ver, a vida com strollers tem suas alegrias e tristezas. Mas, brincadeiras à parte, nós também temos a grande responsabilidade de lidar com as pessoas que mais precisam de um nível Disney de atendimento. Não são só pais com crianças pequenas e inquietas que procuram esses serviços, ou gente que simplesmente não quer andar. São cadeirantes, pessoas com dificuldade de locomoção, crianças com câncer e outras doenças de partir o coração. Nós somos o primeiro contato delas ao chegarem no parque e o último contato ao saírem, então a mágica precisa começar conosco e acompanhá-las o dia todo.

Um tarde, uma mãe chegou com uma filha de dez anos sorridente e de olhar distante, e quando a menina sentou na cadeira, a mãe desabou ao meu lado. Ela disse que a filha estava com fibrose cística e estava ao poucos perdendo a visão, e por isso ela a trouxe para a Disney: para que ela pudesse ver o castelo pela última vez. E são nesses momentos que você entende porque está ali. No treinamento, nós precisamos escrever em letras maiúsculas no caderninho: I CREATE HAPPINESS. Não tem muito significado lá, timidamente rabiscado em uma sala fechada, com todo o futuro na sua frente lhe encarando. Mas ali, com as mãos sujas de tinta e o cabelo preso num rabo improvisado, fazendo aquela garotinha rir com o seu aceno, ali tudo faz sentido. I am a cast member. I create happiness. I am essential. I change lives.

Sim, eu fico cansada. Sim, é difícil sorrir todos os dias. Sim, às vezes a gente quer jogar tudo pro alto, chutar a pilha inteira de strollers e voltar pra casa. Mas alguém precisa fazer isso. E eu fiz. Assim como todos os outros que eu conheço que literalmente deram o sangue pela empresa para manter aqueles carrinhos em pé. Por orgulho, por caráter, por dedicação. Muito obrigada por empilharem strollers comigo, amigos. See ya real soon.

Eu sempre fico muito emocionada falando sobre strollers. Enough with them. Vamos falar sobre papel Geami. Já estou arrepiada.

Na Celebrity 5&10, o protocolo é assim: você compra, a gente embrulha. Pense numa loja em que NADA é à prova de gente desastrada. No período do ICP, ela que normalmente é uma loja de cozinha vira uma loja de Natal, cheia de ornamentos, enfeites, figuras de porcelana e tudo que pode quebrar ao mínimo toque. E quebra. Ah, se quebra. Para isso, a Disney não tem plástico bolha para oferecer de consolo aos viajantes. Tem algo melhor, e se chama papel Geami. Tudo na loja é embalado naquele super papelão, e se você já sente o meu desespero, imagine aquela senhora que vai fazer o rancho da árvore de Natal dela nessa loja e chega no balcão com 20 enfeites de árvore, todos prontos para serem embrulhados separadamente, numa fila de proporções pós-Fantasmic. A adrenalina subia e golpeava sangue para todos os músculos do meu corpo, coisas que eu só estou sentindo agora depois de voltar, toda travada.

Mas se na 5&10 a gente não tem um segundo de descanso, na Cover Story a vontade de dormir é total. Basicamente, nós ficamos lá paradinhos enquanto os fotógrafos fazem todo o trabalho de escolher e editar fotos ou pequenos álbuns, só precisando da nossa assistência na hora de pagar, o que demora uns 20 segundos, contrastando com os 20 minutos que eles passam com cada guest.

Só o que ninguém te avisa é que o seu trabalho vai ser quase que completamente de intérprete e tradutor, às vezes até de línguas que você não fala (o que é sempre bem divertido, só que não). No final do ICP eu já fazia até o trabalho do fotógrafo e explicava todos os pacotes, sendo que no início eu morria de medo de me mandarem pra lá porque não entendia nada de photopass, magic bands e Memory Maker. Parece que o mundo dá voltas, não é mesmo?

E se o mundo dá voltas e eu sempre acabava terminando o dia na Cover Story, minha amiga Mariana sempre era mandada relutantemente todas as manhãs para The Darkroom, e com razão. Aquela loja de livros, CDs, DVDs e tantas coisas legais vendia frequentemente só uma coisa do seu estoque: magic bands. Se fosse só vender a maldita tava tudo certo, mas elas também precisavam ser imediatamente linkadas à conta do usuário, o que era feito em um programa que os ICPs não tinham acesso. E, obviamente, nós sempre estávamos sozinhos naquela loja, o que pedia uma ligação urgente para algum dos coordenadores vir e ativar o negócio, o que comumente demorava ou não acontecia. Era uma maravilha. Dica: antes de ligar, acene loucamente para a 5&10 e espere alguém perceber o seu sinal de fumaça, porque depender dos coordenadores em situações como essas é xingamento na certa dos guests, que irão exclamar veementemente que você está estragando toda a viagem deles. Você vai ficar assustado ao descobrir que essa é a frase mais ouvida por todo cast member, independentemente de role, raça ou credo. Não ligue. Você sabe que está fazendo o que pode e que as pessoas perdem muito a noção na Disney.

A Head to Toe é um mistério para mim, porque eu só fui mandada uma vez lá em todo o meu programa, no meu último dia. Lá é a loja que faz a bordagem de chapéus personalizados, assim como toalhas e meias de Natal. O trabalho lá não é pra ser muito estressante, porque quem faz a bordagem é outra pessoa treinada, mas a vibe daquele cubículo é muito agitada e você se sente um pouco na guerra, com gente gritando "MAKE IT WORK" com muitos sotaques carregados e crianças chorando. Você, na sua insignificância em meio ao caos, só anota os pedidos e finaliza a transação e reza pra dar certo.

Um dia no meu treinamento na Head to Toe, meu gerente chegou com um chapéu rosa bebê da Minnie e disse que nós iríamos fazer uma surpresa muito especial pra uma família. Nas mãos, ele tinha os resultados um ultrassom, que nem os pais tinham visto ainda, e quem iria revelar a notícia seria o próprio Mickey, ao entregar uma caixinha para eles contendo com o chapéu, o exame e uma foto nossa segurando uma plaquinha "IT'S A GIRL!". Foi mágico demais.

E se eu achava que nenhuma location se comparava em níveis de estresse ao Right Block, tudo mudou quando, na semana do Natal, eu fui transferida para o outro lado da rua. O Left Block.

"Welcome to Mickey's of Hollywood. Leave your sanity at the door."

O clima naquela loja, a maior do Studios, era de soldados compatriotas dividindo trincheiras, bombas explodindo por todos os lados, gente gritando por ajuda e fugindo para as montanhas (ou só o backstage). Aprendi muito naquela semana e tenho as cicatrizes para provar. Just kidding. A Mickey's é dividida em várias zonas, que englobam todo o merchandise do parque, e é o primeiro e último destino de todo guest que visita o DHS. Tenho flashbacks às vezes de cabides me soterrando num depósito, e eu sei de onde eles pertencem. Tive a sorte de só lidar com os gerentes e coordenadores mais queridos dessa área, além de compartilhar histórias hilárias de trabalho com os outros ICPs dessa location, então sim, eu sou muito grata pela experiência de ter trabalhado lá, embora ainda tenha pesadelos de encontrar guests entrando no meu quarto e eu estar deitada na cama, que faz parte da decoração, e precisar atendê-los. True story.

A Keystone Clothiers é o paraíso do cast member do Left Block. Quando seu colega chega com uma cara meio suspeita e um papel na mão, se não for a hora do seu break, ele provavelmente está de mandando pra fora da linha de fogo, em algum lugar na Keystone, a loja do lado. Ela é basicamente uma loja de roupas adultas, joias e acessórios, além de ser muito tranquila de trabalhar e ter uma posição bastante estratégica na hora da Dance Party. Adorava ficar lá por motivos óbvios, menos quando precisava ser consultora de charms da Pandora, porque não entendia nada disso, mas inventava que só, o que gerava situações bem engraçadas pra mim: "Sim, acredito que esta seja uma coleção exclusiva de 2015" ou "Esse modelo sai bastante, talvez você goste mais desse aqui".

Fui deployed (transferida) mais uma vez no meu programa, dessa vez para a Sunset Boulevard, que foi a minha semana mais agradável de trabalho. Fiquei nas lojas Once Upon a Time, logo ao lado do teatro da Bela e a Fera, que vende coisas de princesa, brinquedos e roupas; a Reel Vogue, antiga loja de vilões, que hoje vende jogos de tabuleiro, pelúcias e doces; a pequena loja de Toy Story logo ao lado da atração; e a Legends of Hollywood, a loja do "Frôzi".

Destaque para essa última locação, em que eu tive que responder cada pergunta de brasileiro que não me aguentava séria.

- É aqui que sai a Frôzi?
- Desculpe, senhora?
- É nessa loja que encontra a Frôzi?
- Ah, sim. Não, senhora, a Elsa e a Anna não ficam aqui na loja. Elas tem um show musical no teatro azul que fica...
- Então elas não saem por aquela porta?
- Não, senhora, ali é só o nosso depósito.

Entre outras pérolas.

Trabalhar na Disney foi uma experiência especial demais. Ser merchan foi algo incrível e desafiador, apavorante e libertador, tudo de uma vez só. Às vezes acordo sem entender como aquilo tudo foi real, de volta à minha realidade como sapo, sem mais estar a 15 minutos do Magic Kindgom ou a um telefonema de distância de tantos amigos, tantas aventuras esperando pra começar. O trabalho é difícil, exaustivo, não nego, mas não é essa questão. A superação pessoal, sim. A vontade de fazer a diferença com as suas pequenas ações. O sorriso discreto no rosto após cada barreira vencida, lição aprendida. Não há palavras para descrever o ICP. Há uma palavra, porém, que chega bem perto: faça.

                           

Nos próximos posts, falarei sobre os outros aspectos do programa: acomodações, dias de folga nos parques, Grace Period, entre muitas outras coisas.

Não se esqueçam de curtir a nova página do blog no facebook para divulgar essas informações do ICP e saber o que esperar dos próximos capítulos.


sábado, 31 de outubro de 2015

Como trabalhar na Disney


Com duas semanas para o meu embarque e visto oficialmente autorizado, sinto que nada, nem um pé quebrado, nem o fim do mundo, nem o vírus da dengue, NADA mais ficará no caminho entre a minha mala e aquele avião.

Dito isso, agora bato na madeira, porque seria horrível ir pra Disney de pé engessado, tomando remédio, no meio do apocalipse zumbi. Pelo menos, se isso acontecer, eu tenho certeza que o meu seguro cobre (mais sobre isso depois).

Trabalhar na Disney é fácil? Vamos começar dizendo que, sim, é possível. É importante essa escolha de palavras, porque "fácil" mesmo é um modo ao qual esse jogo em particular não está habilitado. Aqui nessa realidade é só de level hard pra cima, sendo por vezes uma história indistinguível de Jogos Vorazes, Game of Thrones e Big Brother, só disfarçados de magia e pó mágico.

E, hey, isso é uma coisa boa.

Na verdade, essa é a diferença fundamental entre a experiência de ir à Disney a passeio e a trabalho. A passeio, você senta, relaxa e aproveita, porque sabe que o show foi feito exclusivamente para você. A trabalho, você é a pessoa fazendo o show acontecer. Puxando as cordinhas. Ajudando o Donald a se preparar pra parada das 3 da tarde ("que horas começa a parada das 3?"). Dando o "ok" para o barquinho começar a jornada pela selva animatrônica. Não há espaço para erros quando você é membro do elenco (cast member) da maior empresa de entretenimento do mundo.

E por que alguém escolheria o modo hard em vez do modo easy, especialmente quando o modo easy parece tão mais mágico e perfeito? Afinal, ninguém quer ver a Cinderella comendo um sanduíche de bacon enquanto alguém conserta as luzes problemáticas do Fantasmic.

Bom, assim como qualquer videogame, o modo hard, quando batido, sempre é também o mais gratificante: eu consegui, fiz isso sozinho, sou o campeão, pode soltar o Queen bem alto agora.

Mas todo mundo sabe que a Disney não é como um videogame, não tem nada a ver, é só a metáfora mesmo. A Disney é um sonho. E nenhum sonho se realiza sem um esforço muito grande, um estresse que te consome e muitas noites mal dormidas. Porque, no final, o sonho sempre vai valer a pena.

A Disney é o meu sonho. E agora, pode-se dizer que estou pronta para vivê-lo, uma vez que a parte burocrática está toda completa.

Qual é o seu sonho? Se houver alguma chance que seja parecido com o meu, continue por aqui que vamos desvendá-lo para você.


Quem é que faz o programa?
O ICP (International College Program) ou CEP (Cultural Exchange Program), no Brasil, é mediado pela STB (Student Travel Bureal), uma agência de intercâmbio que sedia a primeira fase da seleção e facilita o processo para o aplicante. Acessem o link para maiores informações sobre o ICP.

O que eu preciso fazer para ser elegível para o programa?
- Ter no mínimo 18 anos de idade até a data de início do processo seletivo.
- Ter inglês fluente.
- Ser estudante universitário regularmente matriculado em curso presencial reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), com duração mínima de quatro anos e calendário acadêmico regular.
- Estar cursando entre o segundo e o último período acadêmico.
- Ter disponibilidade para iniciar e completar o programa a partir de meados de novembro até o começo de março do ano seguinte.
- Possuir condições financeiras para custear bilhete aéreo de ida e volta, seguro médico internacional, as primeiras duas semanas de acomodação e despesas de visto.
- Estar apto a morar com participantes de diferentes países e culturas.
- Ser extrovertido, alegre e flexível.

No que consiste o processo seletivo?
O processo mesmo leva uns seis meses, o que é uma maravilha para pessoas ansiosas como eu, mas basicamente ele consiste em duas palestras e duas entrevistas que você precisa passar. A primeira fase acontece em algumas cidades do país, como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte, e é feita por representantes da STB, toda em inglês.

Depois da primeira fase, se seu resultado for positivo, você passa para a segunda fase em São Paulo, em que a entrevista é feita pelo povo americano da Disney, e esse ano, pela primeira vez, foi realizada no próprio escritório da Disney, o que é um pouco bastante tenso, mas divertido.

Além disso, eles avaliam seu currículo (não é necessária experiência anterior de trabalho) e sua Letter of Intent, carta em que você explicita os motivos por quais você quer muito isso pra sua vida (sem muito melodrama, por favor, mas sem deixar de ser fofo, afinal não é pra esquecer que é um intercâmbio de trabalho, mas também é a Disney). Para saber mais sobre essa parte, acesse esse blog que me ajudou muito durante o processo.

O que posso fazer na Disney?
As "roles" (funções) são:

- Attractions/Operations (trabalha em brinquedos, shows e paradas);

- Bell Services (posição em hotéis, parecido com mensageiro); 

- Character Attendant (acompanhante dos personagens); 

- Character Performer (o próprio personagem, mas para o ICP só é possível ser um personagem de "pelo", então, não, meninas, não pode ser princesa); 

- Merchandise (trabalho em lojas de parques, hotéis e Disney Springs); 

- Quick Service (trabalho em restaurantes fast-food em parques e hotéis);

- Costuming (trabalho de bastidores, nos locais onde os cast members retiram e devolvem suas roupas); 

- Custodial (manutenção e limpeza de parques e hotéis durante o horário de funcionamento para o público); 

- Full Service (função exercida em restaurantes com serviço de garçom); 

- Housekeeping (camareiro nos hotéis); 

- Lifeguard (salva-vidas); 

- Recreation (aluguel de equipamentos de lazer em hotéis, entre outros). 

É importante ressaltar que enquanto você pode determinar as suas preferências, a escolha final sempre é da Disney e não pode ser alterada, exceto em raríssimos casos. Minha dica: só vai. No ICP, a gente diz: "the role never bothered me anyway". A oportunidade e a experiência como um todo são muito maiores que a sua posição no show. Na Disney, todo mundo é importante.

Clique aqui para maiores informações sobre as roles.

E se você quiser ser expert no programa e saber de tudo na hora que acontece,
Entre no grupo fechado do facebook dos Futuros Cast Members, em que todo mundo se ajuda e você vive o programa várias vezes antes mesmo de participar. É sério. Entrem no grupo. Salva a sua vida várias vezes quando tem informação nova nos sites ou prazos urgentes pra cumprir.

Agora, a minha experiência.

Se você mora em Manaus e tem um sonho, espero que você seja uma pessoa muito valente. Eu não sou, mas estou aprendendo a ser. Além do custo normal do programa (que é mais barato que um intercâmbio normal, além do fato de você ganhar boa parte de volta com o seu salário), eu tive que viajar duas vezes com a minha amiga Victoria só para fazer parte do processo seletivo. 

Após trancos e barrancos, uma carta escrita às pressas, a Victoria ter ficado de stand-by na primeira fase, uma segunda entrevista tão nervosa que tenho espasmos só de lembrar, a novela do seguro de saúde e um drama gigantesco nas faculdades públicas desse país, passamos. Vamos. 

Eu passei para Merchandise, a Victoria para Quick Service, e vamos no dia 16 e 30 de novembro, respectivamente, voltando em 11 de fevereiro, após uma viagem de 5 dias para Nova York no final do programa.

Rimos, choramos, batemos a cabeça na parede, cantamos High School Musical na fria sala de espera da entrevista com vários desconhecidos, conhecemos a Rádio Disney, sofremos com a Internet caindo bem na hora das missões impossíveis que precisavam ser cumpridas em segundos, choramos mais um pouco, gargalhamos, fizemos amigos do Brasil todo e muito brevemente do mundo todo, vimos várias pessoas ficarem pelo caminho, aprendemos a apontar com dois dedos... e assim é o ICP.

E, acredite ou não, ele só está começando.

Tenho tanta coisa ainda pra falar que meus dedos estão engasgados, por isso hoje vou parar por aqui. Qualquer pergunta, qualquer sugestão de tópico sobre o programa, não hesite em perguntar, que eu estarei prontíssima para responder, funcionária digna de Walt Disney que sou.

Caramba.

Que sonho. 


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

P.S.: Funcionária do Mickey


Com as mãos trêmulas e o cabelo molhado, escrevo estas palavras que convêm uma alegria muito sofrida e suada: após meses de incessantes testes e preocupações, sou oficialmente uma cast member contratada pela Walt Disney World na Flórida. Resumindo, eu vou trabalhar na DISNEY. Sabe a Disney? Aquela Disney? Pois é, essa Disney. Eu tô indo trabalhar lá. Eu, eu mesma. Na Disney.

As mãos trêmulas não são tão difíceis de deduzir o motivo, eu acabei de voltar do consulado americano e eles estavam anunciando que iriam começar "um treinamento de destruição em massa com armas pesadas", e que "não era necessário se alarmar". O cabelo molhado é porque eu saí correndo na chuva sem olhar pra trás, pernas pra que te quero, com bombas explodindo em algum lugar da propriedade, sorrindo feito uma pessoa que aparentemente ainda não entendeu a estranheza da situação.

Quem liga para bombas, que se explodam, porque eu acabei de passar com louvor pelo Chefão Final da última fase do Cultural Exchange Program (CEP, falecido, porém eterno ICP), a temida e impiedosa Embaixada dos Estados Unidos.

Este post é somente uma nota para expressar a minha mais que absoluta felicidade e êxtase com a notícia, e anunciar a nova série do blog, que vai ser sobre um assunto que eu acho que vocês podem adivinhar.

Respondendo logo algumas perguntas que serão elaboradas futuramente, junto de maiores explicações, eu adianto que será um estágio de novembro a fevereiro em Orlando, e que não, eu não vou ser a Minnie, nem o Pateta (acho importante declarar, haha). Passei para o cargo de Merchandise, ou seja, vou trabalhar nas lojas do complexo.

Já que a minha mão parou de tremer, agora é hora de comemorar (tomando água, porque a garganta tá seca, seca).

Se você estiver visitando a Disney nesse final de ano, não esquece de dar um oi.

Enquanto isso, vou ficar aqui praticando a chamar um certo camundongo de chefinho.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Contraindicado em casos de suspeita de Bratislava


Nosso querido e saudoso escritor Douglas Adams já dizia: “Na vida, há várias centenas de experiências, sentimentos e situações que todos conhecemos e reconhecemos, mas para os quais não existe uma palavra. Por outro lado, o mundo está infestado com milhares de palavras sobressalentes que passam o tempo todo sem fazer nada além de vadiarem por aí em postes de sinalização apontando para lugares."

Sabe o ligeiro desconforto que você sente ao se sentar em um assento que ainda está quente da bunda de outra pessoa? Ou quando você se encontra parado na cozinha sem saber exatamente o que foi fazer lá? Todo mundo conhece essas sensações, porém somos ingênuos o suficiente para acreditar que somos únicos nas nossas esquisitices, talvez pelo simples fato de que ninguém nunca tenha parado para nomear esses momentos fugazes, que passam despercebidos pela memória.

Aliás, "Woking". É por esse motivo que você abriu a geladeira de madrugada mesmo sabendo que só tinha queijo vencido dentro. E já que estamos desvendando os mistérios da experiência humana, conheçam "Abilene": é esse o descritivo do frescor agradável do lado inverso do travesseiro.

O que essas palavras têm em comum? São todas nomes de cidades do interior do interior da Inglaterra, que previamente não denotavam significado maior além de "pois é, nasci lá". Para Douglas Adams, no entretanto, essas foram palavras oportunas e divertidas que o ajudaram a traduzir o inexplicável, cujos verbetes ele reuniu em seu livro "The Meaning of Liff".

Como toda boa ideia, essa surgiu em uma viagem do autor, dessa vez à Grécia, ou seja, em um momento maravilhoso em que estamos relaxados, atentos e propícios a acreditar em mais do que seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

Então foi assim, relaxada, atenta e propícia a aceitar situações impossíveis, que eu embarquei na maior inocência em um trem para a pacata capital da Eslováquia, Bratislava.

Eis o que se seguiu.


A ideia era tão boa como qualquer outra. Mais um dia na cinzenta e austríaca Viena e começaríamos a falar espontaneamente em alemão, frustrados, soltando grunhidos pelos ares. A Polônia era muito longe e voltar para a Hungria não era uma opção. Por que não, então, dar uma chance para a outra capital europeia localizada a meia hora de distância, que nas fotos parece tão pitoresca e agradável?

Não, vamos sim. Parece divertido, Carlinhos. A previsão do tempo disse que iria ficar muito frio e chover, mas talvez a área só cobrisse a Áustria, e não a Eslováquia. Imagina só uma chuva tão potente que fosse cobrir dois países, não, é um absurdo. Vamos sim.

Fomos. No trem, eu cedi à tentação recorrente de apoiar a cabeça no vidro gelado e pulsante da janela, só porque eu podia e achava legal e fresquinho. Não sei se existe uma palavra para isso, eu já procurei, mas sei que muita gente faz isso no avião. Deve ser terapêutico. O que eu percebi, no entanto, ao fazer isso, na época ainda não entendia o significado, mas hoje eu sei que se refere ao occhiolismo, uma palavra obscura criada pelo americano John Koenig. A consciência da pequenez da sua perspectiva.

É óbvio que iria chover forte em qualquer lugar a 30 minutos de Viena também, não importa se isso atravessa uma fronteira imposta por convenções políticas, ou o quão positivo seu pensamento seja. Mas não foi por isso que cheguei a essa conclusão. O que eu estava pensando mesmo não tinha nada a ver com o tempo; estava maravilhada com a prova física de que mesmo com poucos quilômetros de distância, dois lugares poderiam ter histórias, paisagens, línguas e costumes completamente diferentes um do outro, mesmo que separados apenas por uma linha imaginária fortalecida pelo tempo.

Aqui no Brasil dificilmente nos deparamos com essa perspectiva, visto que vivemos em um país de proporções continentais e um mero adolescente com seus 515 anos de história "oficial". Na Europa, é tudo tão pertinho, tão pequenininho, que você fica até impressionado com as mudanças bruscas de cenário. Isso me faz imaginar as pessoas na era medieval brigando pelo seu pedacinho de terra, que claramente era muito melhor e infinitamente superior ao outro pedacinho de terra do vizinho, por isso eles precisavam morrer.

Se ao menos aquele trem fosse uma máquina do tempo me transportando diretamente para o passado, para que eu pudesse presenciar ao menos por um dia os grandes reis da Hungria sendo coroados no Castelo de Bratislava, ou pudesse bater um papo com a Sissi e colocar um pouco de juízo na cabeça dela, afinal, tudo isso aconteceu tão pertinho, aqui, exatamente aqui neste lugar... centenas de anos atrás. É onismo, sabia? A frustração de ficar preso em apenas um corpo, que habita somente um lugar de cada vez.

De qualquer forma, chegamos. Nossos únicos corpos orgânicos nesta dimensão do espaço-temporal desembarcaram na ferroviária eslovaca, consideravelmente confusos e amedrontados. Era a Eslováquia ou era a Turquia? Porque parecia que havíamos aterrissado de paraquedas no meio de Istambul, tamanha era a desorganização e desleixo da estação, com cara de poucos amigos e ande rápido.


"Acho que precisamos de um mapa", sugeriu brilhantemente meu irmão. "Podemos ir andando até o centro histórico."

Mais uma daquelas ideias impossíveis que acreditamos antes do café da manhã.

Achamos o mapa, sim, mas até nos acharmos... digamos que o mapa tinha todas as ruas, menos as que nós calhávamos de andar. Esquerda virava direita, Alexandre virava Afonso e tudo era em eslovaco. E a chuva caindo no frio de zero grau. E nada de centro histórico.

Em um certo momento, avistamos o principal ponto de referência da cidade: O Castelo, que ficava no topo de um monte e foi construído em meados dos anos 800. "Agora vai ser fácil", pensamos.

De repente, uma encruzilhada. 

À esquerda, um túnel que parecia seguir reto em direção ao pé do monte. À direita, um caminho desnivelado que se afastava um pouco do destino, mas talvez nos levasse para mais perto do centro. Afinal, aqueles dois eram os únicos pontos turísticos, poderíamos visitá-los em ordem invertida sem problemas.

"Eu acho que li num site que podia passar por um túnel para chegar no centro", disse meu irmão.

"Eu não lembro de ter visto isso", discordei, mas quem sou eu pra saber dessas coisas.

"Deve ser um atalho."

"Mas esse túnel ao menos tá no meio do mapa?"

"Até agora eu não achei, mas não dá pra achar nada direito aqui."

"Então, o que a gente faz?"

"Eu acho que a gente devia tentar o túnel, qualquer coisa a gente volta."

"É, tá bom. Realmente parece mais perto, e ao menos assim a gente foge da chuva."

Énouement. O sentimento agridoce de ter chegado ao futuro, vendo como as coisas andaram, mas sem poder contar ao seu eu do passado.

Entramos.

A princípio, não conseguimos ver onde o túnel acabava, mas como estávamos absortos em conversa, não nos preocupamos.

Em poucos segundos percebemos o quanto era estranho um túnel daqueles não ter nenhum carro passando, nenhum pedestre, nenhum movimento, nada. Só uma linha reta, escurecida e sem fim. Senti um arrepio. Era a kenopsia. Uma atmosfera sinistra, desamparada, de um lugar que normalmente é agitado com pessoas, mas agora está abandonado e silencioso.

Caminhávamos pelas laterais por costume, quando percebemos os trilhos de trem marcados no chão. "Ah, então está explicado", pensei. "Aqui é um túnel abandonado de bondes."

A cada minuto, nos afastávamos cada vez mais da entrada, sem qualquer estimativa de quanto faltava para emergirmos do outro lado. Naquele momento, tudo que havia era o túnel, o mundo exterior uma completa ilusão. Podíamos ter passado horas, dias, anos lá dentro, com a nossa percepção de tempo percorrido irrevogavelmente embaralhada. 

Foi então que ouvimos, ao longe, um som pavorosamente familiar.

Nos entreolhamos, e aceitamos nossas chances estoicamente. 

"Fica bem perto da parede", avisou meu irmão, levemente nervoso. Mal tivemos tempo para nos preparar.

O bonde passou.

Em altíssima velocidade.

Do nosso lado.

Era um túnel de uso exclusivo para bondes.

E depois do primeiro, aquilo virou uma congregação de bondes. Um à esquerda, outro à direita, dois simultaneamente, e nós lá dentro. E o túnel nem perto de acabar, o início longe esquecido. Todos passando perigosamente perto da nossa posição. Era preciso só um deslize e...

"Seguinte, vamos dar uma corridinha."

Corremos. Se você tivesse passado atrás de nós naquele momento, teria visto uma imagem bastante peculiar naquela manhã chuvosa de fim de inverno. Felizmente, você estava no conforto de casa e não precisou. Tudo bem, eu vou descrever mesmo assim.

O que você acharia se visse um homem e uma mulher correndo atrás do outro dentro de um túnel de bondes deserto, a uma distância remota da civilização?

Exatamente. Eu também me apressaria para salvar a indefesa mulher das garras do assassino da machadinha.

Há meses estávamos tentando escapar do túnel, desviando de bonde após bonde, sem saber o que nos aguardava do outro lado. De repente, uma fraca luz se aproximava no horizonte.

Era outro bonde. Voltando.

Mas depois, outra fraca luz deu sinal de vida. Era o fim. A luz do fim do túnel.

Alguns minutos depois, chegamos até lá e atravessamos os trilhos correndo, saindo pelo lado esquerdo.

Olhamos para o cima e encaramos o céu. Is this real life?

Na verdade, eu encarei o céu. Meu irmão encarou a paisagem, perplexo.

"Cadê o castelo?". Não havia mais nem resquícios do monte do castelo gigante. Não sabia mais nem em que direção ele deveria estar.

Estávamos no que parecia um cenário de guerra, tudo em reforma, muito longe de onde havíamos entrado. "E agora?", era o pensamento que nenhum de nós queria vocalizar.

Mas não precisamos. Fomos distraídos por outro som conhecido, vindo de dentro do bonde. Era um carro da polícia.

"Ah, DE REPENTE, pessoas que TRABALHAM aqui".

"Is everything alright?", perguntou o policial no volante, desconfiado.

Meu irmão ergueu as mãos imediatamente. "WE'RE BRAZILIAN. WE'RE LOST."

O policial então ergueu a sobrancelha, avaliando a situação por 1 segundo, e então sua cara se encheu de algo que os alemães chamariam de Schadenfreude, ou o sentimento de prazer derivado de assistir desgraça alheia. O cara queria muito rir da nossa cara, mas ele conseguiu se conter. 

Após explicada a situação, e o policial esclarecido que não podíamos ter entrado ali, ele nos apontou a direção de volta à vida em sociedade.

Se tivéssemos seguido à direita na rua desnivelada, teríamos chegado ao centro em 5 minutos.

Mas como havíamos escolhido o caminho de meia hora pelo túnel, agora precisávamos de mais 20 minutos até chegar ao centro da cidade.


"Uma ponte", meu irmão disse, numa reflexão mais tardia. "O site disse que o atalho era pela ponte."

"Não pelo túnel."

"Não."

"E que ponte era essa?"

"Eu não sei."

Caímos na gargalhada.

*

Essa foi a história de como eu quase fui atropelada por um bonde na capital da Eslováquia, num dia gelado e chuvoso do mês de março.

Espero que este relato tenha feito vocês terem vontade de visitar a Eslováquia. Vale a pena ir. (Uma vez.)

Em meio a grupos gigantescos de japoneses que um dia eu juro que vão dominar o mundo, encontramos uma cidade de charme decadente, decorada com estátuas divertidas em todos os lugares, e uma juventude considerável, pelos padrões europeus. O castelo, afinal, foi mais uma viagem, só que dessa vez estávamos no caminho certo e tinham pessoas por perto.


E se você for, não se esqueça: o atalho é pela ponte. 

Não pelo túnel.

De preferência, não pegue atalho nenhum e siga rigorosamente as placas, ok? Ok.

Pode perguntar mesmo, eles respondem em eslovaco, mas uma hora você vai acabar acertando.

*

Após essa experiência, tomei a liberdade de inventar a minha própria palavra:

Bratislava. O sentimento de estar perdido dentro de um túnel sem saída em um país desconhecido, sendo atacado por bondes de todos os lados, enquanto se procura o caminho para um castelo no topo de uma montanha.

É um sentimento bem específico, mas se o ser humano nomeou a anatidaefobia, que é o medo irracional de de estar sendo observado, seguido e vigiado por um pato, eu acho que a bratislava também tem espaço no nosso dicionário.

O túnel

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Viena, a prisão dourada de Sissi


Às vezes, eu tento imaginar como seria a minha vida se eu fosse uma princesa. Não uma princesa da Disney, sabe, daquelas com proporções corporais absurdas, amigos animais falantes e finais felizes musicais. Uma princesa mesmo, do século XVIII, sofrendo para respirar dentro do espartilho, viajando numa carruagem a caminho de uma corte desconhecida onde encontraria pela primeira vez meu noivo anão e minha futura sogra carrasca.

Fico imaginando o que eu faria então, diante dessa situação. Sorriria complacentemente, como a boa moça que minha governanta teria me ensinado a ser? Me rebelaria contra o sistema, à la Joana D'Arc? Ou tiraria proveito da situação e acabaria inventando moda na França, enganando meu marido tolo e mandando comer brioche se não tiver pão, num protótipo de Maria Antonieta?

Acho que não importa muito quem eu gostaria de ser, porque essas três mulheres foram assassinadas de qualquer forma, sorrindo ou não sorrindo, ainda que contrariadas, mesmo que com medo, mesmo sendo princesas. Sim, Joana D'Arc, Sissi, Maria Antonieta, todas entram na categoria de princesas, mesmo que tenham sido soldado disfarçado, imperatriz e rainha excêntrica, respectivamente. Afinal, se toda garota é uma princesa, conforme aquele famoso filme prega, esse conceito abstrato precisa se expandir, ganhar novas facetas, novos ângulos a serem analisados. Nenhuma garota é igual. Tudo bem, eu concordo totalmente. Mas só vou aceitar meu direito congênito de me intitular princesa assim que eu descobrir, de fato, o que significa ser uma. Não aceito responsabilidade à toa.

Em Viena, não encontrei minha definição de princesa, e nem vontade de ser uma, mas cheguei a outra conclusão interessante: na dúvida, confie no italiano (mas nem sempre). Passei um bom tempo tentando me lembrar como que havia chegado de Budapeste na capital austríaca, mas não lembro de nada dessa viagem. Por tudo que eu sei, um dia eu estava correndo com os cabelos ao vento no tempo ameno e agradável da Hungria, feliz e despreocupada, e acordei materializada numa cidade pretensiosamente enfeitada, gelada e cinza. Viena. Ou como eu gosto de chamá-la: "O lugar onde o vento literalmente faz a curva".


De malas e cuia no meio da Áustria, nunca me senti mais fora de sintonia do resto do universo. Era a primeira vez que eu visitava um país legitimamente do lado nazista na Segunda Guerra, e pode parecer pouca coisa hoje, mas não é. Existe uma carga pesada no ar, um elefante roxo no quarto que ninguém ousa mencionar. Morrendo de frio, parada na calçada tentando segurar um mapinha maroto com claras intenções de sair voando pro Pólo Norte, é assim que começa a minha primeira lembrança dessa cidade nem tanto inesquecível.

Não que a Áustria seja um lugar ruim, ou feio, ou de pessoas ruins, ou feias. Não é. Viena é majestosa com seus infinitos castelos e construções reais, cheia de gente do mundo todo, em especial negros e asiáticos, o que me fez pensar molecamente "Toma no OLHO, Hitler", que por sinal, também era austríaco.

Não existe absolutamente nada de errado com Viena. Nada, sabe, além da vibe. Turisticamente falando, se você estiver indo para lá, esteja preparado para fazer muitos passeios fechados sem poder usar a câmera dentro de museus e palácios e jardins chinfrins de uma dinastia que você provavelmente não conhece bastante ou não liga o bastante, a dos Habsburgos.

Pra mim, tudo beleza, eu adoro passear dentro de castelo e adoro a história da Sissi, que você provavelmente está se perguntando quem é neste momento, e não, não é a da música do Alexandre Pires. 

Em teoria, eu teria adorado Viena. Na prática, eu nunca conheci cidade mais chata. Tão chata que meus dedos começaram a se automutilar dentro da minha bota e eu tive que achar band-aids pra comprar num mercado em que tudo estava escrito em alemão, inclusive a palavra band-aid. Tão chata que a trilha sonora dos nossos passeios foi embalada por sucessos oriundos das profundezas do inferno do nosso subconsciente, pois era só o tédio aparecer que alguém começava a cantar "Oooh, Antônia brilha", o jingle da drograria famosa da esquina e, claro, principalmente, sem sombra de dúvidas, era só olhar um quadro da imperatriz que alguém irrompia o esperado "O NOME DELA É SISSI! SISSI!".

Palácio de Schönbrunn

Não me admira que nem meus dedos do pé aguentaram a pressão e tentaram saltar fora.

Sem muito pra fazer além dos mesmos roteiros todos os dias, minha mente embarcou numa viagem própria ao passado, tentando entender melhor aquela cidade que eu tanto estava desprezando... por que deveria haver um motivo, e um motivo muito bom para eu não estar apreciando aquela inestimável joia da monarquia, equiparada a da corte parisiense.

Meus devaneios me levaram de volta à infância, mais precisamente, àqueles dias tristes em que a minha mãe não aceitava assistir Cinderella de novo comigo pela quadragésima oitava vez, e colocava um DVD chato, longo, em outra língua cheia de rugidos, sobre uma garota bonita que se tornava imperatriz do império austro-húngaro: Princesa Elizabeth da Bavária. Para os íntimos, Sissi.

Hoje, eu assisto a trilogia de DVDs sozinha, com pipoca, por livre e espontânea vontade. A história em muito se difere dos acontecimentos reais, mas fazer o quê, é cinema mesmo. O importante é saber que Sissi era uma garota de espírito livre, que adorava a natureza e andar a cavalo e vivia no seu próprio conto de fadas rural... até o dia em que ela se casou com o Imperador Franz Josef, quando o conto de fadas paradoxalmente se tornou um pesadelo horrível.

Nem era ela a prometida, era a sua irmã mais velha, Helena, mas o imperador se encantou tanto com a jovialidade da adolescente Elizabeth que desafiou a escolha da mãe e decidiu-se pela outra prima, que gostava bastante dele ou nem um pouco, dependendo da fonte histórica. O fato é: não era para a Sissi estar ali.

Helena teria dado uma ótima imperatriz, divina, com seu amor às regras e ao protocolo, aos cabelos armados e vestidos sedosos, calma e serena e chata pra caramba. 

Mas ele foi inventar de querer a Sissi, então o menino teve que segurar o forninho.

Sissi ficava andando pelo palácio de pijama, descalça, fugindo de madrugada para cavalgar, encrencando com a sua senhora sogra madame Sofia por tudo, desrespeitando toda e qualquer regra estabelecida na história da corte. Depois de coroados, ainda por cima, Franz mal tinha tempo para acompanhar o "treinamento" real de sua esposa, deixando-a inteiramente sob os cuidados da mãe, que abertamente odiava a nora.

Odiava tanto que quando a sua primeira filha nasceu, "Sofia", a arquiduquesa tirou-a dos braços da imperatriz e foi embora com ela. Pra sempre. Ok, não pra sempre, mas ela fez questão de exigir que toda a educação da menina fosse encargo dela e a impedia vê-la, já que uma imperatriz digna é atarefada demais para se preocupar com essas coisas.

Depois disso, o inferno da vida de Sissi só piorou. Sofia morreu aos dois anos, Gisela não era muito fã da mãe por conta da avó, mas quando o herdeiro Rodolfo se suicidou aos trinta anos, a imperatriz não conseguiu superar a dor e passou a usar o preto até o final de sua vida, que veio não muito tempo depois.

Sissi foi assassinada por um anarquista italiano, Luigi Lucheni, em Genebra, que a princípio nem queria matar a imperatriz, e sim o herdeiro do trono da França, o príncipe D'Orleans, mas ele tinha ido embora no dia anterior. Numa tática que pode vulgarmente ser descrita como "Se não tem tu, vai tu", o italiano caminhou em direção à Sissi e a acertou com um estilete fino no peito. Com a quantidade de roupas que a mulher estava usando, ela nem sentiu dor ou percebeu a gravidade da situação, achando que ele estava apenas tentando roubar o seu relógio (sério). Ela correu para não perder o seu navio de volta para casa, mas uma vez lá dentro, desmaiou.

Após sua acompanhante conseguir desabotoar todas as camadas de vestido, percebeu que a imperatriz estava sangrando muito.

Sissi estava morta.

"Que depressivo", dizia o meu irmão ao explorar os castelos comigo, chateado por não poder tirar foto de nada. Vimos cartas que Sissi escrevia para os irmãos na Bavária com muita saudade, poemas sobre como ela se sentia um pássaro preso numa gaiola, de como ela sentia falta das montanhas, da família, da simplicidade, da liberdade.


A única felicidade que Sissi tinha era quando ela podia viajar. Ela adorava a Hungria, e numa manobra política surpreendente, conseguiu coroar o marido como Rei da Hungria com a sua influência, já que ela era aclamada pelo povo húngaro. Amava a Grécia, Portugal, a menina tinha bom gosto.

Viena para ela era como uma prisão, revestida de ouro e brilhantes. E por que não seria?

Talvez tenha sido isso. Talvez conhecer a verdade sombria de uma das minhas histórias favoritas tenha sido o catalisador de todos esses pensamentos ruins. Talvez a minha empatia pela imperatriz fosse tão grande que eu só conseguisse ver a cidade-palco de sua tragédia com os seus olhos.

Talvez.

Cortando meu caminho com dificuldade por causa do vento gélido, cheguei à Stephansdom, Catedral de São Estêvão. Por fora, parece uma cadedral europeia como qualquer outra, mas por dentro, é o lugar mais suntuoso que eu já vi. Impressionante mesmo e as fotos confirmam.



Eu estava animada para ir pra lá porque havia visto um video do John Green visitando as catacumbas da igreja e esse é o tipo de passeio que eu não podia perder. Na idade média, tinha tanta gente enterrada lá embaixo que Viena passou por uma crise de fé, porque as pessoas se recusavam a ir pra igreja com aquele cheiro horrível exalando.

Depois de tirar as fotos mais marcantes da minha carreira não-existente, vi um brasileiro com jeito de mineiro na frente da porta das catacumbas, falando com um bando de gente, alternando entre o português e o alemão. "Tá fechada, ué, fechada mesmo", ele dizia. Depois "Que loko, mano, maneiro". Ele falava de um jeito tão engraçado que dava pra notar um "xD" no final de cada frase dele. Um emoji humano.

As catacumbas ficaram para outro dia. Outra viagem. Outra vida? Que pena.

Outra coisa que vale se comentar sobre Viena é o cardápio, sim, as comidas típicas, regionais e únicas: Schnitzel e Apfelstrudel. Ou traduzindo: bife empanado e torta de maçã. Nota-se a criatividade do povo austríaco nos pequenos detalhes da vida.

É por isso que todo dia nós praticamente almoçávamos e jantávamos no mesmo lugar, um restaurante italiano caseiro perto do nosso hotel, onde nós fizemos amizade com o dono. A comida era muito boa e ele sempre vinha conversar com a gente em italiano, depois que a gente passou uns 6 minutos no primeiro dia tentando decidir como que a gente ia pedir a comida, já que a gente não falava alemão e ele não tava falando nada em inglês. É sempre um desespero na Europa quando isso acontece.

Depois de treinar muito bem o nosso pedido, até a parte de dizer que a coca era sem limão, mas com gelo, ele ficou morto de alegre de encontrar compatriotas nessa terra cinza e constipada.

"Siamo brasiliani", esclarecemos.

"Brasiliani! Meglio!"

E pronto, foi Neymar pra cá, Pelé pra lá. Eu lembro de ser feliz lá comendo bem. Pois é, pequenas felicidades da vida. Talvez um dia eu volte só pra dar oi. Talvez isso faça valer a pena.

"Os austríacos são estranhos," ele disse, fazendo o icônico sinal do dedo indicador girando perto da testa. "Lelés", ele quis dizer.

Mas os europeus, em geral, tem um senso de humor distorcido, além de outras coisas. Visitamos o primeiro parque de diversões da Áustria e o Madame Tussauds que ficava lá (pra nunca mais). O parque tinha algumas atrações que eram morte certa, do tipo PERIGOSÍSSIMO mesmo.

Eu tenho pesadelos com a casa mal-assombrada de lá até hoje, e olha que eu nem entrei. Era uma coisa do capiroto, que deveria ser proibida para menores de 80 anos, e proibida também para maiores de 80 anos para não causar infarto fulminante. As vozes do mal ficavam entoando etereamente convites em alemão para todos que passavam, e a trilha sonora era uma mistura de canção de ninar do demo e rock pesado ao mesmo tempo.

Apalpando a traseira da Imperatriz da Áustria

Ah, Viena.

Fugimos de ti por um dia e encontramos algo ainda pior. Bratislava, porém, fica para o próximo post.

Não era Sissi, Viena, é você.

Você é chata e quer que seja tudo do seu jeito, na sua hora, e se reclamar, vai ter em dobro. Você é a personificação do gelo inconveniente do final de março. Você come mal e tem hobbies ruins e não deixa que ninguém tire sua foto. Você é tipo eu, só que pior.

Eu, que não sou princesa e agradeço aos céus por não ser, pois isso me dá o direito de ser assim, do meu jeitinho plebeu único.

E você, qual a desculpa?